ARTECOLA: a história de empreendedorismo e inovação da família Kunst, por Lisiane Kunst

26 DE AGOSTO DE 2014 - MODA

A empresa que vende insumo para a fabricação de sapatos a vários países começou com a persistência do fundador Francisco Xavier, professor primário que se tornou empresário

Na década de 40, Francisco Xavier Kunst era funcionário da Adams, uma das maiores empresas de calçados do Sul do Brasil da época. O professor primário fazia parte do “chão de fábrica”, local onde a produção realmente acontece dentro da indústria. O empresário Albano Adams, dono do negócio, percebeu potencial e incentivou Francisco a conhecer mais sobre colas – elemento essencial na fabricação de sapatos. O funcionário seguiu o conselho e passou a estudar sobre o assunto nos finais de semana. Desenvolveu um tipo de adesivo para sapatos (antes comprado no Rio de Janeiro) que, além de ser utilizado pela Adams, começou a ser vendido para outras indústrias de calçados locais. 

O esforço acabou virando oportunidade e o patrão de Francisco o convidou para ser sócio em uma nova empresa, a primeira de adesivos do Sul do Brasil, um negócio que iria atender à crescente indústria calçadista da região. Ao lado da esposa Irma, que ajudava no orçamento como costureira, Francisco aceitou o desafio. Mais que isso, Francisco e Irma – que já tinham quatro filhos e aguardavam a chegada de mais um bebê – não hesitaram em vender a casa da família para levantar o capital necessário à sociedade. Investiram, então, no sonho de ter um negócio próprio. Em 1948, a família mudou-se para a chácara dos Adams, onde funcionou a primeira sede da Fábrica de Tintas e Colas Ltda.

“Os primeiros dez anos foram muito difíceis. Nosso avô (Francisco) fazia tudo: comprava as matérias primas, preparava as colas, saia para vender, entregava os pedidos e ainda precisava arranjar tempo para a parte burocrática, de pagamento de títulos, idas a banco, tudo mais. Era uma vida dura ao lado da esposa, que seguia fazendo costuras para ajudar no sustento da casa”, conta Lisiane Kunst, atual Diretora Executiva da Artecola. 

Mas o que não era esperado acabou acontecendo... Após dois anos, a Calçado Adams foi à falência e fechou. Seu Francisco e Dona Irma estavam em uma situação muito complicada, pois a empresa, além de sócia, era a principal cliente da Fábrica de Tintas e Colas. O cenário era desafiador: comprar a parte dos Adams; conseguir outra sede para a empresa; garantir novos clientes para substituir o volume que era vendido à indústria de calçados Adams. Tudo isso em meio a uma situação financeira muito precária, pois os Adams não haviam pago os últimos pedidos. Percalços que foram vencidos com muito esforço. 

“Uma das características mais marcantes do meu avô era a persistência. Sua fé em Deus o levava a acreditar que tudo era possível. Todos esses percalços foram vencidos com muito esforço, ele emprestou um pouco de dinheiro de seu sogro e conseguiu um pequeno empresário local que entrou com outra parte e, com isso, comprou a parte do sócio Adams”, explica Lisiane. “A superação também foi uma marca do nosso fundador. Ele percebia os cenários, buscava soluções, vencia as barreiras. Criou diferenciais de atendimento e produto que foram decisivos para o crescimento do pequeno negócio. E depois de dez anos de grandes esforços, e ele sendo o único funcionário da empresa, as coisas começaram a tomar um novo rumo”, finaliza.

“Identifico-me com os valores deixados por nosso fundador, que sempre priorizou a responsabilidade social, a comunidade e as pessoas que nos ajudaram a construir essa história. A conduta ética em todos os relacionamentos fica como a maior lição”

Assim começou a história da Artecola, com Francisco dando início ao empreendedorismo da família Kunst. Passadas três gerações e 65 anos de muita história, hoje, as Empresas Artecola são o conglomerado que identifica as três companhias e todos os setores de atuação da empresa que começou familiar: Artecola Química, englobando as áreas de adesivos e laminados; MVC Soluções em Plásticos, concentrando atividades em plásticos de engenharia; e Arteflex, negócio de Equipamentos de Proteção Individual.

INTERNACIONALIZAÇÃO 

Nos anos 1960, com a situação já mais estabilizada, em uma sede mais estruturada, Francisco Xavier decidiu ocupar o espaço ocioso do novo prédio com uma fábrica de calçados. Surgia a Calçados Andarsa, que foi importante área de negócios da empresa. “Outro momento de grande importância foi em 1972, quando Renato Kunst, meu pai e já da segunda geração na empresa, participou da Missão à Europa realizada por empresários calçadistas. Foi uma imersão que mudou muita coisa na empresa. Ele voltou da Europa com um choque cultural e conversou com meu avô: a empresa precisava se profissionalizar”, relembra Lisiane. 

Os primeiros passos em direção à internacionalização se deram a partir do início da Calçados Andarsa, em 1963, empresa que já nasceu 100% exportadora. Na década de 1970, começou a diversificação de mercados, iniciando as exportações para a América Latina. Mais tarde, foi definido um plano de internacionalização, que começou a ser implantado na década de 1990. “O lema era ‘ser referência latino-americana em adesivos’. Começamos com abertura de Centros de Distribuição próprios, depois aquisições (a primeira em 2002 na Argentina) e, hoje, temos plantas industriais em toda a América Latina e uma joint venture na Ásia.

DESAFIOS DO FUTURO

“Como integrante da terceira geração à frente da empresa, vislumbro muitos desafios ainda a serem conquistados. Trabalhamos com a inovação e a sustentabilidade para a perpetuação dos negócios, contribuindo para o desenvolvimento das regiões onde estamos presentes e buscando oferecer o melhor resultado a nossos parceiros. Temos em mente nosso papel social, nosso compromisso com o cliente, com os colaboradores, com as comunidades e com os países com os quais nos relacionamos”, explica Lisiane. “Quando, em 1997, colocamos o desafio de ser referência latino-americana, não tínhamos nenhuma operação fora do Brasil. Hoje já somos a segunda empresa em share da América Latina, somente atrás do líder mundial de adesivos”, complementa.

Lisiane acredita que o legado deixado pelo fundador Francisco Xavier é o que conduz a empresa na realização de um trabalho que faça a diferença. Segundo ela, o compromisso com a sustentabilidade é a principal contribuição para a mudança gradual na forma de encarar o futuro e para deixar clara a responsabilidade de cada um, como pessoa ou como empresa, para o futuro das próximas gerações.

“Como executiva de uma companhia multinacional, como integrante da família controladora do negócio, como mulher, como mãe e como cidadã, me identifico muito com os valores deixados por nosso fundador, que sempre priorizou a responsabilidade social, a comunidade e as pessoas que nos ajudaram a construir essa história. A conduta ética em todos os relacionamentos fica como a maior lição”, finaliza.

PERGUNTAS PARA LISIANE KUNST

A Artecola Química foi vencedora do Prêmio Apex-Brasil 2014 na categoria Grande Empresa, com o case “Revolução Artepowder: inovação tecnológica abre mercado asiático para fabricantes de componentes de calçados”. Lisiane Kunst, nesta entrevista, fala um pouco sobre como o primeiro adesivo em pó para o mercado calçadista abriu oportunidades, permitindo a inserção da empresa no continente asiático e no restante do mundo. 

1) A empresa venceu o Prêmio Apex-Brasil 2014 com um case que mostra o uso da inovação para a entrada em um mercado relevante e concorrido, que é o da China. Como foi desenvolvida essa estratégia e como vocês trabalham o tema da inovação?

A inovação está no DNA da Artecola e da Artecola Química desde a sua fundação. Tem sido essa a nossa base do crescimento. Em seu Planejamento Estratégico, ainda em 1997, a companhia definiu que seria referência latino-americana em soluções inovadoras nos segmentos de atuação. A criação do artepowder está intimamente ligada a essa visão, e foi fruto de um desenvolvimento ao longo de cinco anos, no sistema de Open Innovation com a Orisol (fabricante de máquinas), para chegar a um processo que revoluciona totalmente a etapa da fabricação do calçado. Trata-se de um adesivo sólido em pó para o mercado de calçados, inédito mundialmente. A inovação revoluciona o sistema de colagem de solados. Para chegar a resultados positivos no desenvolvimento do projeto, a Artecola Química teve de quebrar paradigmas. Durante anos, o desenvolvimento de novos adesivos para a indústria calçadista caminhou separado da criação de novos equipamentos para o setor. A Artecola Química identificou essa lacuna, e buscando preencher as necessidades operacionais para o êxito no projeto de criação de um novo adesivo, se aproximou da Orisol do Brasil, fabricante de máquinas para produção de calçados.                

“Trabalhamos com a inovação e a sustentabilidade para a perpetuação dos negócios, contribuindo para o desenvolvimento das regiões onde estamos presentes e buscando oferecer o melhor resultado a nossos parceiros”

2) Com o artepowder, a empresa entrou em um mercado extremamente relevante, que é o da China. Quais os desafios para essa inserção e como a empresa os venceu?

A nova empresa está sediada na China e passou a atender o mercado calçadista asiático, que responde por mais de 85% da produção mundial: são 15 bilhões de pares/ano, contra 1,5 bilhão produzidos nas Américas, área de atuação da Artecola Química até então. Nosso investimento em pesquisa resultou numa ampliação do potencial mercado calçadista em 1.000%. A Ásia é o território onde concentra a maior parte da produção de calcados esportivos, e as grandes marcas privilegiam a competitividade e a sustentabilidade. Com este enfoque, o powder chega proporcionando redução de até 70% no tempo de processo e, assim, ganhos significativos no custo do par colado. Reduz também o consumo de adesivo em até 95%, com ganho ambiental, já que não leva solvente nem agua na sua formulação. E há, ainda, o ganho em saúde ocupacional. Tudo isso com alta performance, eliminação de variáveis de erro no processo e geração zero de resíduo. Outro desafio é conhecer o mercado asiático. Tentamos minimizar essa atividade ao fazer uma Joint Venture com um sócio local que está há 20 anos atuando, Orisol.

3) A Artecola é uma empresa internacionalizada, com escritórios ou unidades em países como México, Chile, Colômbia e, mais recentemente, China. Como o processo de internacionalização é orientado e como se desenvolve?

Com uma clara diretriz em sua estratégia de internacionalizar os negócios, definida em 1997, a então Artecola passou a estudar os melhores caminhos. Encontrou nas aquisições uma forma de acelerar o processo.  Foram 4 aberturas de centros de distribuição, 14 aquisições de empresas e várias alianças, tudo isso focado no continente latino-americano. Atualmente temos plantas no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru; além da JV na China. São 430 funcionários trabalhando no exterior, gerando um faturamento igual ao gerado no Brasil.

4) A Apex-Brasil considera o design ferramenta essencial para a competitividade empresarial. Como ele se insere no processo de produção da Artecola?

Trabalhamos o design com o conceito de processo de desenvolvimento de produto, projetando uso, produção, mercado e funcionalidades. A tecnologia está inserida nesse processo, e tudo contribui para a inovação. Como a maioria de nossos produtos, adesivos e laminados não são versões finais para o consumidor, e sim insumos para diferentes segmentos. Agregamos tecnologia e inovação para que nosso cliente possa contar com esses diferenciais no desenvolvimento do design de seus produtos. 

5) Sustentabilidade é outro pilar de competitividade internacional na visão da Apex-Brasil. Como a empresa trabalha com a sustentabilidade e como ela pode se tornar um diferencial no mercado externo?

A sustentabilidade é um dos pilares de atuação da Artecola Química, e essa visão se torna um diferencial no mercado nacional e internacional através nossos produtos. Um exemplo bem claro é o Artepowder. Além dos benefícios econômicos, a inovação traz consigo benefícios sociais e ambientais, contemplando os três pilares da sustentabilidade. Por tratar-se de um sistema de colagem com adesivo sólido, ele não usa solvente (tóxico) ou água (recurso natural) como base, o que já se torna uma importante vantagem ambiental. A substituição da tecnologia solvente pelo adesivo sólido micronizado elimina os vapores químicos no meio ambiente, uma vez que a tecnologia solvente chega a perder 85% de seu volume ao evaporar durante a aplicação. O sistema Artepowder utiliza um adesivo 100% sólido e não emite gases tóxicos ao meio ambiente. Outro benefício é a não utilização de água como base para sua formulação, reduzindo o gasto deste bem natural que vem se tornando cada vez mais escasso na atualidade, o que também gera um ganho social, bem como reduz a necessidade de energia para secagem do adesivo. Tudo isso ainda com benefícios aos trabalhadores da indústria calçadista, que ficam expostos aos solventes no processo de colagem tradicional, e eliminam esse risco à saúde com o Artepowder.

6) Como o setor de insumos para calçados vem se desenvolvendo no Brasil e no mundo? Quais as oportunidades que a empresa vislumbra?

O setor de insumos para calcados no Brasil é um setor que enfrente graves problemas de competitividade e migração das empresas para outros países. A Artecola, já há 30, resolveu diversificar e não depender de um único setor. Atualmente, a Artecola Química atua também nos setores de madeira, automotivo, construção civil, consumo, papel e embalagens. Por outro lado, sendo a empresa de adesivos com melhor cobertura geográfica, ela pode acompanhar a migração dos calçadistas a outros mercados como Argentina, América Central e Ásia, fornecendo componentes onde a indústria estiver.

Lisiane Kunst Bohnen é Diretora Executiva da Artecola Química e terceira geração de empreendedores da família. A Executiva aposta no trabalho em equipe e leva uma frase como lema: “Ninguém é perfeito, mas uma equipe pode chegar muito próximo da perfeição”
Compartilhe essa história
FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre Artecola Química?

    • Ano de fundação: 
      1948
    • Fundador:
      Francisco Xavier Kunst
    • Chairman & CEO: 
      Renato Kunst, Presidente do Conselho de Administração
    • Presidente: 
      Presidente Executivo, Eduardo Kunst
    • Número de lojas/plantas/fábricas: 
      20 unidades (Brasil, Chile, Argentina, Peru, Colômbia, México e China)
    • Quantidade de funcionários: 
      Cerca de 2.300
    • Setor econômico em que atua: 
      Calçadista, moveleiro, transportes, papel e embalagens, construção civil, energia eólica, entre outros
    • Principais produtos:
      adesivos e laminados industriais, plásticos de engenharia e Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
    • Slogan:
      Inovação para resultado
    • Website: 
      www.artecolaquimica.com.br

A internacionalização da Artecola Química

    • Exporta desde quando:
      1963
    • Presença global:
      Seis (com plantas industriais) + uma joint venture na China.
    • Principais mercados internacionais (países e/ou continentes): 
      Toda a América Latina e Ásia
    • Principais produtos exportados: 
      Adesivos e laminados

Apex-Brasil e Artecola Química

    • A empresa participa das ações de marketing de relacionamento da Apex-Brasil, como o Projeto Copa do Mundo. Qual a importância desse tipo de atividade para se obter bons resultados na internacionalização?
    • “Estas ações de marketing de relacionamento são extremamente importantes para fidelizar clientes. Os que trouxemos para a Copa do Mundo voltaram muito admirados com o Projeto e a organização, e fidelizados com a Artecola Química em função das rodadas de negócios e visitas às plantas”, comenta Lisiane.