BEHOLD STUDIOS: o jeito de Saulo Camarotti programar games e ganhar o mundo

11 DE AGOSTO DE 2014 - ECONOMIA CRIATIVA

Ele reuniu desenvolvedores que levaram a sério o sonho de criar games e montou uma produtora independente que representa o mercado brasileiro em mais de 100 países

O ambiente era o melhor do mundo para qualquer equipe de criação: espaço amplo, tomadas liberadas, internet rápida e ilimitada, um acervo gigantesco de referências bibliográficas, ali, à disposição. Melhor ainda: reuniões com direito a um bolinho de chocolate para coroar as tardes. Tudo bem, precisava pagar pelo pedaço de bolo. Mesmo assim, a estrutura era incomparável.

A Livraria Cultura, em um dos shoppings de Brasília, se tornou a sede da Behold Studios durante cinco meses, período de dificuldades financeiras para a empresa de games que se constituía. Mas a falta de orçamento não abalou a vontade, o empreendedorismo e a criatividade dos sócios. “Foi naquele lugar que percebemos que, mais que se alinhar a definições de mercado, o que queríamos realmente fazer eram jogos que nós mesmos queríamos jogar. E era isso que fazíamos todo fim de dia: jogávamos nossos games para testar”, relembra Saulo, fundador da empresa. Foi assim que passaram a desenvolver games com temas e formatos que tinham afinidade. “Entendemos que o retorno financeiro seria consequência dessa nova visão. E, com o novo pensamento, o capital veio”, fala, se divertindo.

Saulo nasceu na década de 1980, época que globalizou a cultura pop e que imortalizou o icônico videogame Atari, lançado no Brasil em 1983. O interesse por tecnologia já corria nas veias do menino. “Desde os sete anos, eu comecei a programar, já tinha meu próprio computador e me ocupava com coisas que me interessavam na época, ou seja, jogos. Então, aos 12 anos, fiz um curso de programação e fui descobrindo esse universo. Minha família inteira é funcionária pública, mas eu sempre tive espírito empreendedor, essa vontade de liderar as minhas próprias coisas. Durante a minha adolescência eu tive vários pequenos negócios”, conta.

“É fundamental para quem queira trabalhar com jogos que visite eventos do setor. Foi assim que pude entender o ambiente de uma feira, aumentar meu networking, conhecer novas tecnologias e fechar negócios”

Saulo não parou de criar e quando chegou à universidade, já sabia o que queria fazer: ciências da computação. “Criei grupos de pesquisa na UnB [Universidade de Brasília], chamei colegas e professores para trabalhar. Foi assim que consegui um laboratório e uma bolsa para pesquisa”, relembra. Como, na época, o tema ainda era pouco explorado na área acadêmica, Saulo aproveitou o poder da rede mundial de computares. “Tudo o que eu queria fazer ou aprender eu pesquisava na internet. Quando eu entrei na UnB, em 2004, não tinha muita coisa sobre a área de jogos. Hoje, já tem trabalhos de conclusão de curso, pesquisas, laboratório e disciplina sobre o tema”, explica.

Em 2008, já no fim do curso, Saulo ganhou dois concursos nacionais: “No Campus Party, ganhei o primeiro lugar no desenvolvimento de um jogo em uma tecnologia específica. E no SBGames, que é um simpósio brasileiro de jogos digitais, ganhei o primeiro lugar com um jogo online que fiz com alguns amigos”, relata. Com esses dois prêmios, o grupo percebeu que o interesse pessoal pelo tema poderia ser levado mais a sério: “Nós procuramos o CDT [Centro ao Desenvolvimento Tecnológico da UnB]. Fizemos um curso de negócios, um plano de negócios e eles aceitaram nossa ideia. Em 2009, começamos nossa empresa”.

Depois do aprendizado na incubadora, a saída para o mundo real foi um momento de crise para a empresa. “Nós ficamos sem dinheiro, sem sala e sem a possibilidade de receber recursos a curto prazo. Em 2011, meu sócio saiu. Como eu queria continuar com o negócio e alguns funcionários também, eles se tornaram sócios e continuaram a trabalhar, mesmo sem receber nada. E foi aí que fomos para a Livraria Cultura”, explica Saulo.

A persistência deu resultado. Hoje, aos 27 anos, Saulo é Diretor Executivo da Behold Studios, produtora independente de games e entende que a luta é diária: “O ano de 2013 foi o primeiro ano inteiro que a empresa se pagou.  Até um tempo atrás, esse era o meu objetivo dentro da empresa. Agora é manter as coisas fluindo. Existe um grande desafio de crescer sem perder o nosso objetivo e a nossa visão”.

LINGUAGEM DIFERENCIADA

A Behold Studios usa uma linguagem visual que lembra bastante a década de nascimento de Saulo e o saudoso Atari. “Nós temos uma distinção que é simples de entender: existe o cinema de Hollywood e o cinema independente. Nós fazemos o game independente, dá para perceber pelo desenho que nós temos”, compara. “A gente joga muitos jogos independentes. E, de vez em quando, surge uma ideia ou um conceito que se transforma em mecânica de jogo. Normalmente, o primeiro protótipo é no papel. Quando todo mundo começa a entender, nós começamos a programar e desenhar”.

“Façam jogos. A prática nos torna mais capazes. Dizem sempre que os dez primeiros jogos de qualquer desenvolvedor serão ruins. Coincidência ou não, Knights of Pen & Paper foi nosso 11o”

A escolha por essa linguagem, segundo Saulo, é o diferencial dos produtos da Behold: “Se nós estivéssemos trabalhando com jogos 3A (AAA), que é o de Hollywood, nós teríamos preocupação em relação a nicho de mercado, se já está saturado, ou se o que pensamos já está sendo feito. O desenvolvedor independente é um pouco mais livre, mais artístico. Nossos jogos são cheios de humor, com referência aos anos de 1980 e 1990. Nós nos vemos e reproduzimos o que gostamos dentro dos jogos”.

Foi assim que nasceu o Knights of Pen & Paper, divisor de águas na história da empresa. Com elementos visuais e sonoros fiéis ao RPG, Knights of Pen & Paper conquistou o público em diversos países e foi considerado uma homenagem aos jogos do passado. A história se passa em uma sessão de RPG – jogo de tabuleiro, que trabalha estratégia e atuação – e brinca com a realidade produzindo uma narrativa simples e pessoal. “É um jogo de metalinguagem. Nós fizemos um jogo de pessoas jogando. E, conforme elas começam a imaginar, esse mundo fantasioso é criado no fundo da tela”, explica Saulo. O jogo recebeu críticas dos principais sites sobre games e conseguiu chamar a atenção para outros trabalhos da Behold Studios. Knights of Pen & Paper teve mais de 15 nomeações no exterior, ganhou sete prêmios nacionais e um internacional.

INTERNACIONALIZAÇÃO

Saulo teve o primeiro contato com o mercado internacional em 2009, quando ganhou um concurso do Ministério da Cultura que acabou o levando para a maior feira de desenvolvedores de games do planeta, a GDC em San Francisco. “Foi aí que pude entender o ambiente de uma feira do setor, aumentar meu networking, e conhecer as novas tecnologias do futuro. Desde então eu resolvi participar dos eventos internacionais, que frequento duas ou três vezes por ano. Nos eventos do setor, nós temos reuniões, fazemos negócios e conhecemos novas pessoas. É fundamental para quem queira trabalhar com jogos que visite eventos como SBGames, GDC, IndieCade, etc.”, ressalta.

Os desafios dos primeiros cinco anos de empresa já viraram história para contar. Agora, Saulo pensa em estabilidade, em manter as coisas fluindo e em alcançar o desafio "de fazer crescer a família Behold, com o mesmo objetivo e visão da empresa, de criar jogos com o coração". Para os jovens que almejam desenvolver games, Saulo deixa um conselho: “Façam jogos. A prática nos torna mais capazes. Dizem sempre que os dez primeiros jogos de qualquer desenvolvedor serão ruins. Coincidência ou não, Knights of Pen & Paper foi nosso 11º”.

Saulo Camarotti é fundador do Behold Studios, estúdio independente de jogos com ampla representatividade no mundo. Amante da filosofia, ele acredita que o desapego das ideias pessoais no momento da criação de um game ajuda a valorizar o espírito de equipe.
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FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre Behold Studios?

    • Ano de fundação:
      • 2009
    • Fundadores:
      • Saulo Camarotti
    • Chairman & CEO:
      • Saulo Camarotti
    • Quantidade de funcionários:
      • 10
    • Setor econômico em que atua:
      • Prestação de serviços em jogos eletrônicos
    • Principais produtos:
      • Knights of Pen & Paper, The Story of Choices, Save My Telly, Chroma Squad
    • Ícones (produto inesquecível):
      • Knights of Pen & Paper
    • Website:

A internacionalização da Behold Studios

    • Exporta desde quando:
      • 2009
    • Valor exportado em 2013:
      • Superior a R$ 500 mil
    • Presença global:
      • Mais de 100 países
    • Principais mercados internacionais:
      • Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Japão
    • Principais produtos exportados:
      • Knights of Pen & Paper, The Story of Choices, Save My Telly, Chroma Squad

Apex-Brasil e Behold Studios

    • Projetos da Apex-Brasil dos quais participa/participou:
      • Missão San Francisco GDC 2013