CI&T: O “zero a menos” de Cesar Gon que ganhou o mundo com tecnologia brasileira

09 DE SETEMBRO DE 2014 - TECNOLOGIA

A multinacional começou dentro de uma empresa júnior da faculdade de computação da Unicamp e hoje está presente em vários países

“A CI&T começou com um backspace”. 

A frase do fundador e CEO da multinacional brasileira de serviços de TI parece até uma brincadeira logo que se ouve. Mas, na verdade, ela é quase literal. Em 1990, Cesar Gon trabalhava na empresa júnior da faculdade de computação da Unicamp. Um belo dia, apareceu um trabalho. “A descrição do projeto informava que o cliente era uma empresa alemã, que estava tentando trazer um software para o Brasil. Na Alemanha, esse programa só rodava em mainframe (computador de grande porte capaz de realizar processamento de dados complexos). No Brasil, a intenção era que funcionasse em máquinas com linguagem fortran (que traduz equações cientificas para códigos de computadores). Já havia seis meses que uma equipe de 15 pessoas da empresa alemã trabalhava nesse software, mas não conseguia fazê-lo funcionar”, explica Cesar. Dois professores, tutores da empresa júnior, analisaram o projeto e sugeriram uma possível explicação para o problema: “Geralmente, quando o software muda de computador, o problema pode ser gerado por uma questão de precisão numérica”, disse um deles. 

“O meu ponto de partida nunca foi a tecnologia em si. Nosso lema interno é que a CI&T desenvolve pessoas antes de desenvolver softwares”

“Chegamos para conversar com os caras da empresa alemã e eles pediram somente que déssemos uma formatada nos códigos. Caso conseguíssemos fazer isso, nos contratariam por mais três meses e aí sim poderíamos tentar buscar a solução para o real problema”. Mas os alunos da empresa júnior não precisaram de muito tempo para descobrir o problema. Enquanto faziam o que havia sido pedido, perceberam que havia uma diferença numérica entre o que os alemães haviam programado e o que os manuais aconselhavam para aquela linguagem na nova máquina. “Vimos que a precisão numérica deles tinha a diferença de uma casa decimal: o manual pedia dez casas decimais e na programação deles havia 11 casas. Ou seja, o mainframe tinha uma casa decimal a mais. Numericamente parece muito pouco, mas na prática, esse número a mais gera diferenças gigantes. Estávamos há meia hora com os alemães e já tínhamos resolvido o problema deles, simplesmente apagando um zero”, relembra, rindo, Cesar. 

Cesar se considera “um programador precoce de Amparo, interior de São Paulo”. Aos 11 anos, ele viu um computador na casa do vizinho. Depois disso, começou a comprar revistas de informática e aprendeu a programar com elas. “Eu usava o caderno da escola durante a aula e ficava programando por código. Um dia, a professora viu o que eu fazia e chamou a minha mãe para falar que tinha algo errado. Eu expliquei, mostrei as revistas e minha mãe perguntou se eu queria um computador, mas naquela época era uma fortuna. Passaram-se seis meses e ouvimos falar de um dentista, que tinha comprado um computador, mas que não o usava. Minha mãe conseguiu comprá-lo por um preço simbólico. Criei uma missão para mim: ganhar dinheiro para adquirir um computador melhor. Por isso, fazia alguns trabalhos como freelancer, mas o que dava dinheiro era desenvolver joguinhos para revistas de informática”, conta Cesar. 

Em 1989, Cesar decidiu entrar na faculdade e não teve dúvidas na escolha do curso: marcou computação no vestibular da Unicamp. Um ano depois, criou sua primeira empresa júnior de computação, a Conpec (Consultoria, Projetos e Estudos em Computação), junto com colegas de turma. Seria a primeira da Unicamp e do Brasil. Na empresa júnior surgiu a primeira oportunidade de negócios, que mais tarde acabou se transformando numa das principais multinacionais brasileiras em serviços de TI. 

“Meu projeto de vida era ser pesquisador de ciências da computação e não empresário. Terminei a faculdade, o mestrado e queria juntar dinheiro para fazer o doutorado nos Estados Unidos. Por isso, prestava serviço de consultoria para a IBM. Eles iriam contratar uma empresa para fazer um projeto e me convidaram para treinar a equipe que ganhasse a concorrência. Perguntei se poderia participar da concorrência e eles falaram que sim, mas faltavam duas semanas para o fim do processo e eu não tinha nem uma empresa. Acabei conhecendo um professor da Unicamp que tinha uma empresa de consultoria, mas que iria voltar a ser professor integral e que, por isso, não poderia mais trabalhar como consultor. Ele ia fechar a empresa que se chamava CI&T (Consultoria Informática & Tecnologia). Convenci-o de me dar a empresa e ele ainda me permitiu deixar o currículo dele para avaliação na concorrência da IBM. Deixei-o com 1% da empresa e chamei meu sócio, o Fernando. Fomos aprovados e ganhamos a concorrência. Assim, foi o início da CI&T”, explica.

“O Brasil é hoje o que o Vale do Silício era em 1960, mas é um processo normal. Já vemos calouros das universidades pensando em montar startup, já temos metodologia e exemplos do que eles podem fazer e seguir”

INTERNACIONALIZAÇÃO

Segundo Cesar, a empresa começou “do avesso”, ou seja, com o primeiro contrato para atender um laboratório de pesquisa da IBM na França, e com o segundo projeto para o laboratório da IBM dos Estados Unidos. “Nós já tínhamos 20 funcionários e características que compunham o DNA da CI&T, precisávamos de pessoas que falassem inglês e que fossem melhores que a gente. Todo mundo que era contratado era conhecido um do outro e da Unicamp’, explica.

Cesar, então, voltou os olhos para o mercado interno, que estava dividido entre multinacionais estrangeiras e empresas estatais, o que, segundo ele, “não combinava com o que estava acontecendo com o mundo”, já que a internet conquistava o planeta e chegava ao Brasil, em 1995. “Dois anos depois, o país começou a olhar a nova tecnologia com algum interesse e nós decidimos reposicionar a empresa para vender internet e encontrar clientes no país”, conta. 

De 1997 a 1999, a empresa entrou numa fase de grande crescimento. Ficou um ano com as atenções voltadas para o mercado interno e, em 2000, voltou os olhos para o mundo, iniciando a participação em feiras, eventos e exposições. Nessa época, o mercado internacional sofria grande influência dos indianos, que se posicionavam na indústria global de software com o selo CMM (Capability Maturity Model, criado pelo Software Engineering Institute). “Como o Brasil não tinha nenhuma empresa com esse selo, fizemos um empréstimo com o BNDES para adquirir essa certificação e conseguir concorrer no mercado internacional. Nessa época, nós já faturávamos seis milhões de reais. Alguns anos depois, nos tornamos não só a primeira empresa brasileira a ter o CMM, como também a menor empresa do mundo a ter o selo, tínhamos 200 funcionários”, conta Cesar.

Em 2004, a CI&T assinou o primeiro contrato de exportação com uma empresa da Califórnia e depois com a Johnson & Johnson. Era o momento certo de expandir: a primeira filial foi nos Estados Unidos e, em seguida, a empresa atravessou o mundo para aterrissar no Japão. Hoje, além destes dois países, a CI&T também está presente na China e na Itália.

TECNOLOGIA E PESSOAS

Segundo Cesar, o Brasil ainda está engatinhando no que diz respeito à mentalidade voltada para tecnologia: “Na década de 1990, o Brasil decidiu competir, mas não tinha o histórico e o ambiente de empreendedorismo. A minha geração era a de filho de professor ou de funcionário público, ao contrário do que acontecia nos Estados Unidos, onde empreendedorismo vem de família. O Brasil é hoje o que o Vale do Silício era em 1960, ou seja, estamos 50 anos atrasados, mas é um processo normal. Hoje, já vemos calouros das universidades pensando em montar startup, já temos vocabulário, metodologia e exemplos do que eles podem fazer e seguir”, explica.

Para ele, o foco dos negócios vai além de TI. “O meu ponto de partida nunca foi a tecnologia em si. Nosso lema interno é que a CI&T desenvolve pessoas antes de desenvolver softwares. Esse é o nosso dia a dia, respiramos tecnologia, mas 90% do nosso negócio está em discutir a gestão da equipe”. 

Cesar Gon é CEO e um dos fundadores da CI&T. Cesar é um grande apreciador de vinhos, de charutos e torce pelo Palmeiras. Cesar gosta sempre de repetir o lema da empresa: “Nós desenvolvemos pessoas antes de desenvolver softwares"
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FONTES DE PESQUISA
  • Entrevista realizada na sede da CI&T, com o fundador e CEO da empresa, Cesar Gon.

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre CI&T?

    • Ano de fundação: 
      1995
    • Fundador: 
      Cesar Gon (CEO), Bruno Guiçardi (Presidente da CI&T Inc., subsidiária nos Estados Unidos) e Fernando Matt (Presidente do Conselho de Administração).
    • Chairman & CEO: 
      Cesar Gon
    • Presidente: 
      Cesar Gon
    • Número de escritórios: 
      A CI&T possui 12 escritórios (Campinas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Atlanta, New Jersey, Nova Iorque, Filadélfia, Califórnia, Londres, Ningbo e Tóquio); três centros de desenvolvimento (dois no Brasil e um na China)
    • Quantidade de funcionários: 
      1.600 funcionários (80% trabalham diretamente com engenharia)
    • Setor econômico em que atua: 
      A CI&T possui uma estrutura verticalizada, priorizando atendimento aos setores de seguro, bancário, varejo e serviços. Para a empresa, conciliar entrega técnica de alta qualidade com conhecimento específico do negócio é fundamental.
    • Principais Serviços:
      Desenvolvimento e gestão de aplicações que transformam o negócio do cliente através de tecnologias digitais; Smart CanvasTM: produto para curadoria inteligente de conteúdo; Solução CI&T IBS (Insurance Business Services): para o setor de seguros; OMNI Retail: construída sobre a plataforma de nuvem do Google (Google Cloud Platform) para o setor de varejo; Plataforma eMetrix: solução que apresenta os principais indicadores do negócio e planos de ação
    • Ícones (produto inesquecível):
      Projeto "Bandeirão de Todo Mundo" para a Coca-Cola (http://www.ciandt.com/bandeirão)
    • Slogan: 
      Colabore. Inove. Transforme.
    • Website: 
      www.ciandt.com

A internacionalização da CI&T

    • Exporta desde quando: 
      1995 
    • Valor exportado em 2013: 
      Exportou o equivalente a 30% (aproximadamente R$ 60 milhões) de sua receita anual de R$ 200 milhões
    • Projetos da Apex-Brasil dos quais já participou: 
      Projeto Actminds/SOFTEX
      Projeto Setorial BRASSCOM. 
    • Presença global: 
      Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, China e Japão.
    • Principais mercados internacionais: 
      Estados Unidos e Japão.
    • Principais produtos exportados: 
      Smart CanvasTM, desenvolvimento e gestão de aplicações.

Apex-Brasil e CI&T

    • “A Apex-Brasil veio para ajudar a acelerar o processo competitivo e de diversos setores do país. Quando voltamos a exportar, tínhamos decidido que seria para os Estados Unidos e queríamos aprender sobre o mercado. Lideramos, então, um grupo de dez empresas para apresentar o projeto de consórcio Actminds para a Apex-Brasil. Com isso, criamos uma marca que juntava todas as empresas e participamos de várias feiras. Esse consórcio teve como principal desmembramento o projeto Unicamp Ventures, que deu origem ao Inova Ventures Participações, fundo de investimento com 48 empresários da região (interior de São Paulo) que investem em startups de alunos da Unicamp”, explica o CEO da CI&T, Cesar Gon.