EMBRAER: o sonho do menino Ozires Silva que ganhou asas

15 DE JULHO DE 2014 - MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS

A terceira maior fabricante de aeronaves do mundo começou em uma conversa entre dois amigos adolescentes. Hoje, a Embraer conquista o planeta com seus aviões

Quem disse que os sonhos de criança não se tornam realidade? E quem disse que todo menino quer ser astronauta ou piloto? “Normalmente, o menino pensa em ser piloto de avião, mas eu acho que poucos pensaram em fabricar aviões, como eu”, observa Ozires. Ele e o amigo Benedito moravam em Bauru, interior de São Paulo, onde na década de 1940 havia um centro aviatório bastante importante. Ali também morava um suíço foragido da Segunda Guerra Mundial que, segundo Ozires, “começou a despertar na molecada que o cercava a curiosidade sobre o avião e o fato de que ele podia ser fabricado. Esse suíço tinha a varinha de condão que mostrou para nós as maravilhosas invenções que existiam dentro de um avião”.

Ozires, nessa época, tinha 15 anos. Ele e Benedito não se conformavam que o Brasil havia tido Santos Dumont – a quem ele se refere como o “grande sábio que fez o primeiro voo daquilo que era mais pesado que o ar” – e que, apesar disso, todos os aviões do aeroclube da cidade eram importados. “Como explicar que americanos e franceses haviam ocupado esse mercado”, era a indagação dos dois amigos.

“O Brasil tem respostas para o desenvolvimento e elas passam pelas pessoas, pela paixão por executar, pela educação, inovação e empreendedorismo. Com a competência necessária, podemos enfrentar a concorrência mundial”

Decidiram, então, que queriam construir aviões. Em 1945, não existia escola de engenharia aeronáutica no Brasil. Chegaram a enviar cartas para universidades americanas, mas os cursos – obviamente – eram todos em dólar, algo irreal para os amigos. Mal sabiam os dois meninos que, muito próximo dali, um oficial da Força Aérea Brasileira, coronel Casimiro Montenegro Filho, realizava o sonho pessoal de construir uma instituição com o objetivo de desenvolver profissionais e tecnologia na área aeronáutica. “Ele dizia que o Brasil só conseguiria fabricar avião se antes fabricasse engenheiros e técnicos. Ele estava lutando para convencer a Força Aérea a criar o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), a primeira escola de engenharia aeronáutica que o Brasil teria. E conseguiu! Em 1950, o ITA foi criado e começou a gerar as sementes necessárias para que o Brasil pudesse entrar nesse mercado de um produto complexo, técnico e cheio de tecnologia, como é o caso do avião”, explica Ozires.

Foi quando os dois amigos foram surpreendidos por um desses “acasos”, capazes de transformar completamente a vida. Um dia, sentados no banco da Avenida Rodrigues Alves, de Bauru, tiveram os devaneios interrompidos por um sargento do Exército que, curioso, resolveu perguntar o que tanto discutiam. “Nós contamos para ele que queríamos ser engenheiros aeronáuticos e ele perguntou por que não começávamos pela FAB (Força Aérea Brasileira)”, relembra.

Nem sabiam o que significava a sigla, mas foram atrás e fizeram o concurso público para serem admitidos. Em 1948, vestiram a farda e começaram a trilhar “o caminho de uma vida ligada ao avião”. Três anos depois, se formaram oficiais aviadores e ainda desconheciam a existência do ITA. Porém, algo inesperado interrompeu o plano conjunto dos amigos. “O Benedito, meu companheiro de conversa, morreu em um acidente aeronáutico, em 1955. Aquilo parecia ter esfacelado completamente o sonho de tentar participar do processo de fabricação de aviões”, relembra Ozires.

Três anos depois da morte de Benedito, Ozires nem pensava mais no sonho de adolescente. Mas um dia, por meio de um amigo, descobriu que já preenchia as condições necessárias para ganhar uma bolsa da Força Aérea, caso passasse no concurso do ITA, e resolveu seguir adiante. Em 1962, se formou engenheiro aeronáutico e foi convidado pelo diretor geral do CTA (Centro Técnico Aeroespacial, localizado em São José dos Campos) a continuar seu trabalho por lá. “Naquele momento, no instante em que eu recebi o diploma, olhei para ele e pensei: tenho a qualificação certa, estou no lugar certo, tenho que criar o momento certo. E foi aí que voltou a disparar aquela ideia de que eu poderia comandar um processo de fabricação de aviões”, conta.

A CRIAÇÃO DA EMBRAER

O quadro era difícil. Desde Santos Dumont muitos haviam tentado. Gente boa, gente competente não conseguiu ir à frente porque, segundo Ozires, estava faltando algo no pensamento deles: a visão mercadológica, de fazer um produto que satisfizesse uma necessidade. O time pequeno do qual Ozires fazia parte observou o mercado brasileiro e percebeu uma demanda que alavancou a criação da empresa: as pequenas e médias cidades não eram atendidas por transporte aéreo, já que os jatos existentes precisavam de pistas e infraestrutura específicas. “Pesquisamos e vimos que nenhuma fábrica do mundo fabricava avião pequeno que pudesse satisfazer a realidade desses locais. E nos lançamos na ideia de criar um avião pequeno, que pudesse pousar em pistas não pavimentadas, adaptadas a pequenas cidades”, relembra Ozires.

E assim nasceu o primeiro projeto nas instalações do CTA, ou seja, a criação de um protótipo dessa ideia. “Foi tudo sem recurso, foi muito difícil, ninguém acreditava, os estrangeiros que visitavam nosso projeto diziam que era uma grande besteira. E a gente procurava ver, em cada crítica, um estímulo para avançar. Dessa forma, fizemos o nosso avião em outubro de 1968 e ele ocupou um espaço no mercado – transporte aéreo regional – que existia no mundo inteiro e sem concorrência ”, conta Ozires.

Mas o projeto, segundo Ozires, tinha que ser internacional, já que o mercado interno brasileiro não justificava a criação de uma empresa nas dimensões da Embraer. “Nós tínhamos que partir de cara para o mercado internacional. Pensar grande era condição. Então, nós não pensamos grande, nós pensamos enorme. Depois de várias tentativas de se conseguir apoio – no Brasil é difícil achar alguém que queira assumir os riscos de um empreendimento – descobrimos que tinha uma lei da reforma administrativa que permitia criar uma companhia com participação privada e estatal, uma sociedade de economia mista”, explica Ozires.

E aí, mais um “acaso” contribuiu para o sonho de Ozires. O avião do Presidente da República da época teve que pousar em São José dos Campos por questões meteorológicas. Por ser domingo de manhã, nenhuma autoridade foi encontrada para recebê-lo. Restou a Ozires, que estava de plantão, fazer as honras. E ele não desperdiçou a oportunidade. “Eu me preparei da melhor forma que eu podia para fazer a maior lavagem cerebral da minha vida na cabeça do presidente para que ele concordasse em criar uma sociedade de economia mista e a gente pudesse lançar o nosso projeto. E o presidente acreditou”, se diverte Ozires. E continua: “Disse que íamos fabricar aviões de todos os tipos e vender pro mundo inteiro, invertendo a balança comercial do Brasil, que de importador passaria a ser exportador de aviões”.

A Embraer – Empresa Brasileira de Aeronáutica – foi criada e a partir de 2 de janeiro de 1970 começou a funcionar. “Tínhamos que ter estratégia, olhar para o futuro. Tínhamos produtos originais, de marca brasileira, que podiam varrer o mercado internacional. Para isso, tínhamos que trabalhar para conceber as tecnologias necessárias, estabelecer as parcerias que fossem fundamentais, realizar investimentos em educação e formar pessoal. Assim começamos”, lembra.

INTERNACIONALIZAÇÃO

A empresa realizou a primeira exportação em 1975, quando vendeu cinco EMB 110 Bandeirantes à Força Aérea Uruguaia e apresentou o avião agrícola EMB 200 Ipanema ao Ministério da Agricultura daquele país. A entrada no mercado americano, a partir de 1978, se deu com uma adaptação do Bandeirante para atender à regulamentação de aeronaves de até 19 passageiros. Na sequência, teve início o processo de expansão global da Embraer quando, em 1979, a Embraer Aircraft Company iniciou as atividades de vendas e apoio técnico a novos clientes do mercado americano. Menos de quatro anos depois, em fevereiro de 1983, a empresa se estabeleceu na França, após a encomenda de aviões Xingu. “Fizemos também o tucano e hoje ele se transformou no melhor avião de treinamento que está no mercado atual. Treina pessoal da força aérea inglesa, da francesa, da grega... Temos 20 forças aéreas do mundo utilizando o tucano para treinamento, inclusive o Brasil”, comenta Ozires.

Com a crise de 1990, Ozires se viu em um impasse: “Tive que correr o risco de propor a privatização da companhia, porque a legislação estava complicada. O fato é que precisava privatizar para simplificar os processos da empresa”, lembra. A partir daí, o movimento de ampliação da presença global ganhou novo impulso, que permitiu à empresa uma nova postura corporativa, mais ágil e flexível, com capital de novos acionistas controladores. “Durante esse período, fizemos o projeto do EMB 145 (primeiro jato de transporte aéreo regional para 50 pessoas) e ele foi um sucesso internacional. Criamos empresa de vendas e começamos a assumir a venda dos nossos aviões. A Embraer é uma multinacional presente em todos os países do mundo, com brasileiros vendendo aviões”, fala orgulhoso, Ozires.

Além de expandir escritórios de marketing e vendas e implantar centros de distribuição de peças de reposição, a estratégia de internacionalização da Embraer envolveu também ações como a constituição de joint ventures e a aquisição de empresas tradicionais especializadas em serviços aeronáuticos.

“Nós podemos e devemos nutrir sonhos. E temos que aproveitar as oportunidades. O tempo inteiro ficar aprendendo, pensando, criando, empreendendo, REALIZANDO. Cada um de nós pode ser um centro gerador de riquezas e um contribuinte para a inovação”

A diversificação do portfólio de produtos também foi estratégica para a internacionalização. Criaram o avião Brasília, pressurizado. Também produziram quatros aviões para atender grupos de 70 a 110 passageiros. A Embraer lançou a linha de seis jatos executivos e bateu recorde mundial de entregas desse tipo de avião. “O próximo passo é o avião supersônico para a FAB, quem sabe pensar até em avião supersônico de transporte. Temos o DNA disso tudo para continuar no processo de empreendimento. Nós criamos realmente uma multinacional. Estamos nos Estados Unidos, em Portugal, na França, na China, em Singapura. Temos subsidiárias que estão fazendo o trabalho de venda, peça de reposição, assistência técnica e tudo que faz parte de uma operação tecnológica”, explica Ozires.

A IDEIA É ACREDITAR E PERSISTIR SEMPRE

Ozires sempre acreditou no poder de se pensar grande: “Quando temos um objetivo a atingir lá na frente, quando sabemos aonde queremos chegar, a escolha do caminho a seguir fica mais fácil. Nós temos a resposta para o desenvolvimento, não temos que agir como cidadãos de segunda classe. Se tivermos problemas, nós podemos achar solução e criar oportunidades”.

A trajetória do empreendedorismo, segundo ele, é como um avião. “Eu brinco sempre que o avião não pode ser visto com o bico para baixo, sempre com o nariz para cima, quer dizer, sempre na direção do crescer. O Brasil tem respostas para o desenvolvimento e elas passam pelas pessoas, pela paixão por executar, pela educação, inovação e empreendedorismo. Nós temos que acreditar nisso e que, com a competência necessária, podemos enfrentar a concorrência mundial, que não é pequena”, explica.

Ozires continua com os ensinamentos de tantos anos de experiência. “Nós podemos e devemos nutrir sonhos. E temos que aproveitar as oportunidades. O tempo inteiro ficar aprendendo, pensando, criando, empreendendo, REALIZANDO. Empreendedor não é só aquele que faz grandes empreendimentos, mas quem monta o próprio negócio, ou cria valor na empresa em que está trabalhando. Não importa onde, temos que ser sempre um contribuinte para a inovação. Cada um de nós pode ser um centro gerador de riquezas”. E finaliza, repetindo a frase que o motiva desde o início da busca deste sonho que criou asas: “Aqueles que não pararam, avançaram tanto que jamais poderão ser alcançados. Não parem, avancem sempre, acreditando que vocês podem ser melhores”.

Ozires Silva é o fundador da 3ª maior fabricante de aeronaves do mundo, acredita em sonhos e ensina que para chegar a algum lugar é preciso pensar grande e voar, como os aviões.
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FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre Embraer?

    • Ano de fundação:
      • 19 de Agosto de 1969
    • Fundadores:
      • Ozires Silva
    • Presidente:
      • Frederico Curado
    • Número de lojas/plantas/fábricas:
      • 27
    • Quantidade de funcionários:
      • Mais de 19 mil empregados de mais de 20 nacionalidades
    • Setor econômico em que atua:
      • Aviação
    • Principais produtos:
      • Aviação Comercial: Família ERJ 145; Família E-Jets;
      • Aviação Executiva: Phenom 100E; Phenom 300; Legacy 450; Legacy 500; Legacy 600; Legacy 650; Lineage 1000E;
      • Defesa e Segurança: A-29 Super Tucano; Plataformas ISR; Missões Especiais; KC-390;
      • Embraer Sistemas: Desenvolvimento e integração de sistemas complexos para setores além dos de aviação e defesa.
    • Slogan: Embraer. O mundo cada vez mais brasileiro. O Brasil cada dia mais global
    • Website: www.embraer.com.br

A internacionalização da Embraer

    • Exporta desde quando:
      • 1975
    • Valor exportado:
      • A contribuição da Embraer com a balança comercial brasileira nos últimos dez anos foi de US$ 16.02 bilhões 
    • Presença global:
      • Presente em mais de 50 forças armadas em 48 países; aeronaves comercializadas para mais de 86 companhias aéreas em mais de 55 países; mais de 750 jatos executivos entregues em mais de 50 países
    • Principais mercados internacionais:
      • Estados Unidos, Portugal, Irlanda, Reino Unido, Holanda, França, Emirados Árabes Unidos, China, Singapura

Apex-Brasil e Embraer

    • Projetos da Apex-Brasil dos quais já participou:
      • Projetos Setoriais ABIMDE, desde 2012 até 2016, Projeto Imagem BE BRASIL, Exposição BID-BRASIL 2013, Fórmula Indy, desde 2011 até 2014, Projeto PBR Brasil e PBR 2014, Projeto Grand Prix 2013, Tecnopolis 2013, Projeto Copa das Confederações 2013, Projeto Copa do Mundo 2014