FOTON NO BRASIL: A aposta de Mendonça de Barros na parceria entre Brasil e China

12 DE JUNHO DE 2014 - MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS

A construção da fábrica chinesa de caminhões no Brasil pode contribuir com o estreitamento das relações entre os dois países

A decisão pelo terreno em Guaíba, município a 30 quilômetros de distância da capital gaúcha Porto Alegre, levou em consideração, especialmente, os elementos econômicos. Como sempre, tudo muito bem analisado e negociado. Detalhes nunca passaram despercebidos para ele que tem uma visão bastante direta e pragmática quando o assunto são negócios – fruto de anos de experiência, vivência e conhecimento profundo da economia brasileira.

Luiz Carlos Mendonça de Barros percebeu a oportunidade, transformou a intenção em projeto e, desde abril, os planos de trazer a Beiqi Foton Motor Group, fábrica chinesa de caminhões, para território nacional estão se materializando com a construção de uma planta que vai ocupar o espaço de 1,5 milhão de metros quadrados. A ideia é que o primeiro caminhão Foton fabricado em Guaíba percorra as estradas brasileiras em maio de 2016. Até lá, muito trabalho, incluindo a construção da fábrica e o treinamento de pessoal qualificado que dará início à linha de produção. Nada que já não tenha sido previsto pelo presidente da Foton no Brasil, que tem o planejamento como estilo de vida.

“Desde 2004, tenho seguido de perto a experiência chinesa de abandonar o socialismo duro dos anos Mao e de construir uma economia moderna, com a participação conjunta do Estado e da iniciativa privada, o que permitiu que a China passasse de uma sociedade de pobres para a condição de maior economia do mundo, como informou recentemente o Banco Mundial. Acredito que nos próximos dez anos, as grandes empresas chinesas vão assumir a liderança em setores importantes como o automobilístico e o de caminhões. Foi a partir desta leitura que me entusiasmei com o projeto de trazer a Foton para investir no mercado brasileiro e servir como âncora para outros investimentos chineses no Brasil”, explica Mendonça de Barros.

“Sou um otimista em relação ao Brasil. Não conheço pessimistas sistêmicos que tenham tido sucesso na atividade empresarial”

O executivo experiente, que já foi presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento (de novembro de 1995 a abril de 1998) e ministro das Comunicações do Brasil (de abril a novembro de 1998), assumiu os riscos do grande investimento em uma marca chinesa, mas fez questão de afirmar que quem está fazendo a fábrica é um grupo nacional, do qual ele é acionista majoritário. A parte chinesa entrou com transferência de tecnologia, de projetos e uma supervisão periódica da produção. Mas os empregos gerados serão para brasileiros. Quando a fábrica estiver a todo vapor, Mendonça de Barros prevê 300 vagas diretas e mais de 1200 indiretas. Além disso, todos os fornecedores de matéria-prima e equipamentos serão da região onde está instalada a fábrica: 80% do caminhão da Foton fabricado no Guaíba serão de peças brasileiras, decisão tomada pela engenheira chefe da fábrica chinesa, que constatou que o caminhão gaúcho – pelo menos, no ínício – terá qualidade superior ao caminhão chinês, graças à força e qualidade da indústria brasileira de autopeças.

O projeto de trazer a maior montadora de caminhões do mundo para território nacional teve início com a visita de uma delegação da empresa ao Brasil em 2010. “Neste primeiro encontro fiz uma avaliação do mercado de caminhões no Brasil, usando minha experiência como presidente do BNDES, que tem um programa chamado FINAME, responsável por mais de 60% dos financiamentos para a compra de caminhões no Brasil, o que faz do banco um dos mais importantes centros de conhecimento deste setor”, explica Mendonça de Barros.

A delegação da Foton voltou à China e pediu que Mendonça de Barros coordenasse um grupo de técnicos para elaborar um plano de entrada da empresa no mercado brasileiro. Quando o estudo foi concluído, em 2011, o executivo foi convidado a apresentar a proposta em Pequim. Depois desse encontro, a Foton Aumark do Brasil (FAB) foi criada para importação e distribuição de caminhões leves produzidos pela chinesa Beiqi Foton Motor Group. O que os envolvidos não esperavam era uma decisão do governo brasileiro que forçaria uma mudança de planos.

O presidente da Foton recorda que esse foi um dos momentos mais difíceis na implantação do projeto. Foi em 2012, quando o governo brasileiro criou um imposto adicional que onerava em 30% a fabricação de automóveis e caminhões. No caso dos caminhões que seriam importados, a junção do imposto de importação e do novo IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) fazia com que os preços ficassem muito acima dos valores de venda dos produtos fabricados no Brasil.

“A nossa operação ficou totalmente inviabilizada nestas novas condições. Mas, poucas semanas depois, com a publicação do decreto que regulava o Programa Inovar-Auto*, uma luz abriu-se para nós da Foton Brasil: se instalássemos uma fábrica de caminhões no Brasil em até dois anos, passaríamos a ter isenção do novo IPI. Além disso, teríamos uma cota para importações de caminhões da China, também com isenção de imposto. Isso era de fundamental importância para construirmos uma rede de concessionárias que daria suporte à produção local. Fomos, então, discutir esta alternativa com a direção da Foton chinesa e voltamos com um novo contrato, que nos dava o direito de produzir no Brasil toda a linha de caminhões leves até o ano de 2025”, explica.

PLANEJAMENTO PARA O FUTURO

Mendonça de Barros sabe onde está, onde quer chegar e leva em consideração as peculiaridades da economia mundial para prever o alcance das metas que criou para a empresa: quer 5% do mercado brasileiro e ainda está discutindo com a Foton China a incorporação dos mercados do Mercosul e da América do Sul. Só em 2013, a Beiqi Foton Motor Group exportou cerca de cinco mil caminhões para os mercados da América Latina. Este número, se exportado a partir da fábrica de Guaíba, pode significar um montante anual de duzentos milhões de dólares.

“Não apostem contra o capitalismo. É normal que este sistema econômico e social crie crises que podem ser profundas de tempos em tempos; mas sempre há formas de se lidar e de sair delas”

Quando questionado sobre o novo desafio a que se propôs, Mendonça de Barros costuma dizer que a decisão de iniciar o projeto Foton no Brasil aos 71 anos de idade surgiu do constante interesse de ser ator – e não figurante – no processo de integração das economias do Brasil e da China. O economista entende que assim está colaborando para fortalecer as relações futuras entre as duas economias, com efeitos favoráveis para as duas sociedades.

Mendonça de Barros cita um valor que, segundo ele, sempre marcou sua trajetória, tanto pública quanto privada: é um otimista, especialmente com o Brasil. Agente que viu de perto todas as mudanças da economia brasileira, não hesita em repetir o que acredita nos ambientes profissionais que frequenta: “não apostem contra o capitalismo. É normal que este sistema econômico e social crie crises que podem ser profundas de tempos em tempos; mas sempre há formas de se lidar e de sair delas”. E acrescenta uma lição para quem quer ser empreendedor no Brasil: “não conheço pessimistas sistêmicos que tenham tido sucesso na atividade empresarial. A única forma que conheço para se enfrentar um problema na vida profissional é o de começar pelo começo, ou seja, respondendo corretamente à seguinte pergunta: qual é o problema REAL que temos que resolver?”.

* O Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto) foi uma medida adotada pelo governo federal, em 2012, com o objetivo de estimular o investimento na indústria automobilística nacional. Estima-se que, até 2015, o programa levante mais de R$ 50 bilhões em investimentos no setor. As medidas introduzidas pelo Programa Inovar-Auto fazem parte da política industrial, tecnológica e de comércio exterior, e concede benefícios em relação ao Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para as empresas que estimularem e investirem na inovação e em pesquisa e desenvolvimento dentro do Brasil. O programa prevê um desconto de até 30 pontos porcentuais no IPI para automóveis produzidos e vendidos no país.

** Segundo o pensamento keynesiano, a premissa fundamental para se compreender uma economia encontrava-se na simples observação dos níveis de consumo e investimento do governo, das empresas e dos próprios consumidores. Partindo desse princípio, a doutrina aponta que no momento em que as empresas tendem a investir menos, inicia-se todo um processo de retração econômica que abre portas para o estabelecimento de uma crise. Para evitar isso, o keynesianismo defende a necessidade do Estado em buscar formas para se conter o desequilíbrio da economia. Entre outras medidas, os governos deveriam aplicar grandes remessas de capital na realização de investimentos que aquecessem a economia de modo geral. Paralelamente, era de fundamental importância que o governo também concedesse linhas de crédito ao baixo custo, garantido a realização de investimentos do setor privado.

Luiz Carlos Mendonça de Barros é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e ministro das Comunicações. O economista é um otimista nato, especialmente, quando se refere ao Brasil.
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FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre Foton Brasil?

    • Ano de fundação:
      • 2010
    • Fundador:
      • Luiz Carlos Mendonça de Barros
    • Presidente:
      • Luiz Carlos Mendonça de Barros
    • Quantidade de funcionários:
      • 64
    • Setor econômico em que atua:
      • Automotivo
    • Principais produtos:
      • Foton 3,5-11 rodagem simples; Foton 3,5-11 rodagem dupla; Foton 3,5-14; Foton 6- 14; Foton 8 -16; Foton 10 toneladas
    • Slogan:
      • O básico é ser completo
    • Website:

A internacionalização da Foton Brasil

    • A Foton, empresa de origem chinesa, está investindo no Brasil com a construção de uma fábrica em Guaíba, no Rio Grande do Sul
    • A fábrica deverá contar com a geração de 300 empregos diretos e mais de 1200 indiretos
    • A Foton já contabiliza 24 concessionárias distribuídas em pontos estratégicos do país (18 em operação; seis em processo de nomeação, recebimento de equipamentos para atendimento ao cliente e finalização das obras)
    • Todos os fornecedores de matéria-prima e equipamentos serão da região onde está instalada a fábrica
    • 80% do caminhão da Foton fabricado no Guaíba serão de peças brasileiras