GAROTO: o sonho brasileiro do imigrante alemão Henrique Meyerfreund

22 DE JULHO DE 2014 - ALIMENTOS E BEBIDAS

A empresa de doces que fugiu dos principais polos econômicos do país se consolidou no mercado interno e levou um pouquinho do gosto do Brasil para o mundo

“São 17h30 em ponto quando o apito da fábrica ecoa por todo o bairro, anunciando o final de mais uma jornada de trabalho. Os moradores nem estranham mais o ir e vir daquele pessoal todo vestido de branco. Conferem os relógios e prosseguem imperturbáveis em sua rotina. Também não parecem notar o aroma adocicado de chocolate que perfuma as ruas próximas à grande empresa e que insinuam as doces maravilhas que estão sendo feitas atrás daquelas paredes. ‘É o costume’, dizem, diante do estranhamento de algum turista. Mas a aparente indiferença não disfarça a expressão de orgulho que, mesmo sem querer, escapa de todo capixaba diante da fábrica Chocolates Garoto”.

“Nem bem o dia amanheceu e a pequena fábrica já está em plena atividade. Com expressão séria, nada escapa aos olhos azuis de Henrique Meyerfreund. Confere a textura do chocolate, o sabor dos bombons e, na oficina, ajuda o mecânico a regular a máquina, pouco se importando em sujar de graxa as mãos ou manchar de óleo o avental. Satisfeito com o que vê, não disfarça o bom humor, o que logo é notado por seus funcionários. É preciso aproveitar quando o ‘seu’ Henrique está assim para aproximar-se dele e, quem sabe, conseguir um vale, um adiantamento ou mesmo um empréstimo... Não que ele seja em geral inacessível, apesar do ar sempre compenetrado. Ele é justo e ‘generoso até demais’, diria o tesoureiro da fábrica. Mas o fato é que nada alegra mais Henrique do que ver a fábrica funcionando a contento. Nem poderia deixar de ser. A empresa nasceu do sonho e do esforço de Henrique Meyerfreund, um imigrante alemão que, como milhares de outros – italianos, suíços, pomeranos, austríacos –, adotou o Brasil para trabalhar e construir sua vida”.

“Henrique – na verdade, Heinrich – deixou a Alemanha em 1921, com apenas 20 anos de idade.  Era de uma família de quatro irmãos. Seus pais eram agricultores e possuíam uma singela manufatura de melaço de beterraba. Embora de renda modesta, fizeram questão de que Henrique completasse o curso secundário num dos melhores colégios de Hanover. Naquele início da década de 1920, porém, a vida não estava nada fácil na Alemanha, derrotada na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Atraído pela promessa de uma vida melhor na distante América, Henrique Meyerfreund embarcou para o Brasil. Ao acaso, travou amizade com um agrimensor francês, que iria para o Espírito Santo e que o convidou para trabalhar junto”. (Trechos retirados do livro “Chocolates Garoto, 80 anos: uma história de sucesso)

O começo não foi fácil para Henrique Meyerfreund, que acabou contraindo malária logo que chegou ao país, ficando, assim, bastante debilitado. Na luta pela saúde, conheceu outro imigrante alemão, Wilhelm Meyer, que o ajudou na reabilitação e que instigou o jovem Henrique a enveredar pelo caminho da indústria de doces. Na Alemanha, existiam várias fábricas de doces e chocolates, o que facilitou sua identificação com esse tipo de produto.

Dessa maneira, sonhador e determinado, em 1929, Henrique fundou a fábrica H. Meyerfreund & Cia, em um galpão localizado na Prainha, cidade de Vila Velha, Estado do Espírito Santo. Nos primeiros anos, a empresa produzia balas que eram vendidas nos pontos de bonde, por meninos e seus tabuleiros de madeira, característica que começou a identificar o negócio e que em pouco tempo fez com que as balas começassem a ser chamadas de “balas Garoto”. O produto foi tão bem aceito que passou a ser vendido também em casas comerciais e colônias do interior do Estado. Não demorou muito para o negócio expandir, e em 1934 a empresa começou a fabricar, também, chocolates. Em 1936, a fábrica de balas foi transferida para um antigo prédio onde funcionou uma produtora de artefatos da construção civil, no bairro da Glória, também em Vila Velha, local em que está até hoje. Em 1942, Henrique Meyerfreund não poupou trabalho e persistência e, a partir daí, se inicia uma nova etapa da história: a etapa da agora Fábrica Chocolates Garoto.

“Estar no Brasil é concretizar um sonho: trabalhar com a melhor equipe e representar a marca mais importante para os brasileiros” - Liberato Milo

INTERNACIONALIZAÇÃO

Com o passar do tempo, os filhos de Henrique se envolveram também com a empresa, trazendo novas ideias e conhecimentos, contribuindo para o negócio evoluir para cada vez mais mercados em todo o Brasil, chegando mais adiante a várias partes do mundo. A empresa foi liderada por Helmut Meyerfreund, um dos filhos de Henrique, por 40 anos. Com Helmut à frente dos negócios, as décadas seguintes foram marcadas pela ampliação e modernização das instalações industriais e dos processos produtivos, pela adoção de novas políticas comerciais que fizeram com que a empresa alcançasse todo o mercado nacional e também chegasse ao mercado internacional. Neste período, também ocorreram fortes investimentos em tecnologia, lançamento de novos produtos e consolidação da estrutura comercial adotada.

“Abra os olhos para o mundo”, era a mensagem da campanha de lançamento do bombom Mundy em 1994. Mais do que uma frase de efeito promocional, naquele momento poderia ser interpretada como uma verdadeira meta traçada pela Garoto. Como o Brasil passava por um momento de estabilização da moeda, a nova situação econômica contribuiu com a vinda de empresas estrangeiras e com o aumento da concorrência no mercado interno. Era preciso que os produtos Garoto se destacassem e, para isso, uma Diretoria de Logística foi estabelecida com a função de integrar os negócios relativos à aquisição de suprimentos, à produção e à distribuição. Esse sistema logístico em pouco tempo se constituiu no mais moderno do país. No mesmo ano, foi instalado um Centro de Distribuição no Rio Grande do Sul (CDRS), com o objetivo de racionalizar as vendas crescentes para os países do MERCOSUL.

Na Argentina, a partir de 1995, a Garoto tornou-se a marca de produtos alimentícios estrangeira mais conhecida no país. Os argentinos reconheciam a Garoto como “o chocolate do Brasil”, e nas pesquisas de opinião apontavam a marca como o produto alimentício brasileiro mais consumido. No Uruguai, o chocolate Garoto era o mais consumido. Nessa época, Estados Unidos e MERCOSUL se tornaram os maiores mercados de empresa. Com essa força de vendas no mercado externo, a Garoto decidiu se globalizar de vez e, em 1998, abriu as primeiras subsidiárias: em Buenos Aires, a Garoto Argentina S.A. e, em Chicago, a Garoto America, Inc. Com recursos próprios de logística, marketing e vendas, essas subsidiárias contribuíram significativamente para consolidar e ampliar a presença da Garoto naqueles mercados. No início dos anos 2000, a empresa manteve a posição de maior exportadora de chocolate acabado do Brasil. A estratégia de diversificação resultou, também, na abertura de vendas para países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Líbano, Catar e Israel; e da América Central, como Costa Rica, República Dominicana e Belize.

Em 2002, um novo marco celebrou os então 73 anos da empresa. A Garoto foi comprada pelo grupo Nestlé, aumentando sua força de expansão e distribuição e contando, a partir daquele momento, com toda infraestrutura e experiência de uma das maiores empresas alimentícias do mundo. Desde então, a empresa vem multiplicando investimentos na produção e no desenvolvimento de novos produtos.

Atualmente, a Garoto está sob o comando de um suíço apaixonado pelo Brasil, Liberato Milo. Filho de pais italianos, depois de percorrer vários países, conhecer diversas realidades, acumular experiência e vivenciar na prática mercados de diferentes complexidades, ele realiza agora o desejo de trabalhar no país. “Estar no Brasil é concretizar o sonho que eu tive, quando eu entrei na Nestlé há 16 anos: trabalhar com a melhor equipe desse país e representar a marca mais importante para os brasileiros”, costuma dizer.

VALORES E FUTURO

Para a Chocolates Garoto, além de gerar lucro para os acionistas, é preciso gerar benefícios também para a sociedade. E a empresa leva essa premissa ao pé da letra, ou das letras “C”, “S” e “V”. A Criação de Valor Compartilhado (CSV) é uma plataforma de responsabilidade social corporativa da companhia, que tornou-se um componente fundamental na sua estratégia de negócio. De acordo com o CSV, cada atividade da cadeia de valor da empresa tem potencial para produzir benefícios sociais, por isso envolve colaboradores, consumidores e comunidades, buscando demonstrar um comportamento responsável, assegurando a conformidade e a sustentabilidade.

“A dedicação, a força do trabalho dessa gente e o cultivo da paixão pela fabricação de chocolates colocaram a Garoto entre as principais empresas do setor chocolateiro do país. Do momento em que foi criada, em 1929, até hoje, a Garoto construiu uma história repleta de desafios, transformando o que eram aparentes dificuldades em vantagens estratégicas. Consolidar-se em um local cerca de mil quilômetros distante do principal polo econômico brasileiro e, ainda por cima, trabalhando com um produto tão sensível às altas temperaturas numa região de clima tropical, por si só parecem ser fatores limitadores do sucesso. Mas não foram. Ao contrário, reforçaram a vocação para empreender, na medida em que era – e é – sempre preciso redobrar esforços para provar que é possível construir e crescer em qualquer lugar, em todas as condições, por mais adversas que pareçam, quando se usa como principal ferramenta o trabalho, a determinação, a criatividade, a ética profissional e o respeito mútuo”. (Trecho retirado do livro “Chocolates Garoto, 80 anos: uma história de sucesso)

Henrique Meyerfreund foi o fundador da fábrica Chocolates Garoto, nasceu no ano de 1901 e faleceu em 1973, com 72 anos.
Compartilhe essa história
FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre Garoto?

    • Ano de fundação:
      • 16 de agosto de 1929
    • Fundadores:
      • Henrique Meyerfreund
    • Diretor-Geral:
      • Liberato Milo
    • Número de fábricas:
      • Uma fábrica na cidade de Vila Velha (ES), onde também está a loja, o Centro de Documentação e Memória (CDM) e seu principal Centro de Distribuição (CDES). Possui outros centros de distribuição no estado de São Paulo
    • Quantidade de funcionários:
      • Mais de 17 mil colaboradores, entre diretos e indiretos
    • Setor econômico em que atua:
      • Alimentos
    • Principais produtos:
      • Chocolates, sorvetes e biscoitos
    • Ícones (produto inesquecível):
      • Baton, Caixa de Bombons Sortidos, Talento e Serenata de Amor
    • Website:

A internacionalização da Garoto

    • Exporta desde quando:
      • Em 1972, a Chocolates Garoto exportou, pela primeira vez, manteiga e torta de cacau para a América do Sul e Estados Unidos. Em 1978, a empresa também passou a exportar produtos acabados para vários países do mundo
    • Presença global:
      • A Garoto exporta seus produtos para mais de 50 países espalhados pelo mundo
    • Principais mercados internacionais:
      • América do Norte e América Latina
    • Principais produtos exportados:
      • Bombons, barras de chocolate, candy bars, ovos de Páscoa, coberturas e pastilhas

Apex-Brasil e Garoto

    • Projetos da Apex-Brasil dos quais já participou:
      • Anuga, ISM, Sial, Golfoods, Filda, Missões Compradoras, Missões Vendedoras, Projeto Fórmula Indy, Projeto Carnaval.