JBS: A visão de simplicidade dos Batista traduzida na construção de um império

10 DE JUNHO DE 2014 - ALIMENTOS E BEBIDAS

Wesley e Joesley – os irmãos Batista – dirigem a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo e acreditam que o segredo de qualquer negócio está em se importar com as pessoas e em desburocratizar os processos

O Planalto Central estava movimentado naquela época. Região um pouco esquecida, de repente, tinha se transformado no centro das atenções. A principal causa era a construção da nova capital do Brasil, promessa de campanha do então presidente Juscelino Kubistchek. Ao redor da cidade – que aos poucos ia aparecendo da terra avermelhada – reinavam os muitos pastos. O Centro-Oeste, na década de 1950, era (e até hoje é) reconhecido pela atividade pecuária.

José Batista Sobrinho, à época, era conhecido como Zé Mineiro. Origem declarada no apelido, Zé deixou Alfenas, em Minas Gerais, para tentar a vida em Anápolis, no interior de Goiás. Junto com o irmão, tinha um pequeno açougue: a Casa de Carnes Mineira, fundada em 1953. Ali, intermediava a venda de bois para frigoríficos e também abatia cinco animais por dia. Mal sabia que o início das obras de Brasília, em 1957, mudaria definitivamente o rumo dos negócios.

Brasília saía do papel e fazia aparecer, no meio do cerrado, as formas imaginadas por Oscar Niemeyer. Os refeitórios dos candangos – como eram conhecidos os operários que trabalharam na construção – passaram a ser abastecidos com a carne do pequeno açougue de Zé Mineiro, que aumentou o abate para 30 cabeças por dia. A decisão de ir a Brasília para fornecer carne bovina para as empreiteiras que construíram a capital federal foi, talvez, a mais importante para o crescimento da empresa, pois a ajudou a escapar da crise que atingiu o setor na época. Com essa base consolidada, a Casa de Carnes Mineira mudou o nome para Friboi e, a partir daí, iniciou um processo escalonado de expansão que, meio século depois, a transformaria na maior empresa em processamento de proteína animal do mundo.

Zé Mineiro, depois de muito tempo à frente dos negócios, passou o bastão para os filhos. Primeiro, para José Batista Júnior, ocupante do cargo de presidente durante mais de vinte anos. Depois para Joesley e Wesley, os dois grandes responsáveis pela trajetória de crescimento vertiginoso dos últimos dez anos. Em 2006, a empresa assumiu as iniciais do fundador e, desde então, o grande império dos irmãos Batista é conhecido no mundo todo como JBS.

“Eu me sinto muito orgulhoso e honrado de poder representar o que meu pai nos confiou para administrar. A vida inteira, ele nos falou que o nome era a coisa mais importante de uma pessoa e de uma empresa. Todo o resto vem do crédito que dão ao que você construiu”, conta Wesley, atual presidente da JBS, referindo-se ao contexto em que os irmãos foram criados e a uma das principais filosofias da empresa.

Cultura é observar e disseminar os melhores comportamentos; é identificar as pessoas com os mesmos valores da empresa. Sempre fazemos isso nas nossas aquisições pelo mundo e, assim, construímos a nossa cultura” – Joesley Batista

Os filhos de Zé Mineiro começaram a trabalhar cedo nos negócios da família. Eram três homens e três mulheres. O pai dava tarefas diferenciadas, dependendo do que percebia como potencial em cada um. Wesley relembra que o aprendizado veio de diversas atividades, desde carregar caminhão com mercadoria, até cuidar de pequenos abatedouros: “meu pai acredita nas pessoas, acredita que todo mundo pode aprender, desde que corra atrás, tenha força de vontade. Esses foram os ensinamentos fundamentais para a cultura da empresa ser o que é hoje”.

INTERNACIONALIZAÇÃO

O crescimento aconteceu de forma acelerada. A empresa aumentou as operações em todo o país e, rapidamente, construiu uma plataforma de produção para o processo de internacionalização, que começou com as primeiras exportações de carne in natura. Foi o primeiro passo para a gigantesca expansão que viria. Entre 2001 e 2006, o grupo passou a operar 21 plantas no Brasil e cinco na Argentina. A partir daí, a palavra “aquisição” passou a fazer parte do vocabulário diário dos irmãos Batista. Juntar a expertise que tinham no setor com marcas de outros países (que trabalhavam com produtos semelhantes) foi a grande jogada para expandir os negócios para o mundo.

A JBS tem uma maneira peculiar de crescer. “Crescemos basicamente por aquisições, sempre muito ousadas. Na grande maioria das vezes, nós adquirimos empresas maiores que nós. Nós éramos de um tamanho 100 e comprávamos um negócio de tamanho 200 e, assim, dobrávamos nosso potencial”, explica Joesley. O período que marca a consolidação do grupo como o maior processador de carne bovina do mundo coincide com a passagem de Joesley Batista pela presidência da empresa, entre 2006 e 2011, que foi marcado pelo processo contínuo de aquisições.

A competição sempre vai existir, o que é bom, porque nos estimula a ser melhor. Pode ter gente fazendo igual ao que fazemos, mas nunca melhor” – Wesley Batista

 

A primeira aquisição ocorreu em 2005, quando a JBS adquiriu a Swift-Armour, maior produtora e exportadora de carne bovina na Argentina. Em 2007, a JBS se tornou a primeira empresa do setor frigorífico a abrir capital na bolsa de valores no Brasil, e expandiu as operações com a compra da norte-americana Swift Company. Era a entrada da empresa brasileira nos mercados de bovinos e suínos dos Estados Unidos e da Austrália. Em 2008, foi a vez da Tasman Group, na Austrália; da americana Smithfield Beef e dos confinamentos da Five Rivers, com capacidade para engordar 2 milhões de animais por ano. Em 2009, a empresa adquiriu o controle acionário da Pilgrim’s Pride e ingressou no mercado norte-americano de aves. O movimento continuou no ano seguinte, com as aquisições da Tatiara Meats, da Rockdale Beef (Austrália), do Grupo Toledo (Bélgica) e do confinamento McElhaney (Estados Unidos). Em 2013, a companhia adquiriu a Seara Brasil e se consolidou como líder global no processamento de aves.

Entre aquisições e incorporações, ampliou a capacidade anual de processamento de bovinos em dois milhões de cabeças, elevou em 33% a capacidade diária de produção de frango, em 30% a de suínos e 14% a de couro. Além disso, o grupo passou a atuar no segmento de alimentos industrializados, transformando-se na segunda maior plataforma brasileira de produção e distribuição de produtos de valor agregado. Atualmente, a JBS soma cerca de 340 unidades de produção em 11 países, mais de 185 mil funcionários e um faturamento estimado em R$ 100 bilhões. Hoje, a presidência da JBS está nas mãos de Wesley Batista, enquanto Joesley preside a holding de investimentos J&F, controladora do frigorífico e de outros negócios da família, como a Eldorado Celulose, a laticínios Vigor e o Banco Original. “Não somos de frigoríficos, somos gente que gosta de empreender, achar uma oportunidade no mercado, achar que pode fazer a diferença e, a partir disso, cada aquisição tem uma história”, explica Joesley.

Quando questionados sobre o aprendizado que tiveram com esse processo, destacam em especial a qualificação das informações que recebem, quando começam a atuar em algum mercado. “É preciso ter cuidado quando alguém fala que o mercado é diferente. Gente é gente em todo canto do mundo: cliente gosta de desconto, vendedor gosta de subir preço, funcionário gosta de salário maior. Todo mundo gosta de ser bem tratado, receber bom serviço. Então, no fim das contas, cultura para nós nada mais é que a observação e a disseminação dos melhores comportamentos. É separar as pessoas que se identificam com o que você pensa. Sempre fazemos isso nas aquisições e, assim, construímos a nossa cultura”, filosofa Joesley.

Simplista demais? Não. Como explica Wesley, esse pensamento está muito longe disso e é só uma aposta, aí sim, na simplicidade dos processos. “Temos costumes diferentes, mas a essência é a mesma. O que motiva, motiva em qualquer lugar do mundo; e o que desmotiva também: criar burocracia, complexidade. Quando as pessoas passam a não se sentir mais parte do que está sendo criado, a razão em fazer qualquer coisa se perde. E liderar uma empresa é igual em qualquer lugar, é dando exemplo. Integração se faz tendo as pessoas corretas no lugar correto. Dinheiro é importante, mas o sonho de fazer parte de algo é fundamental”.

SISTEMA FROG DE GESTÃO

O trabalho e a persistência de Zé Mineiro transformaram o pequeno frigorífico de Anápolis em um império que, em sessenta anos, conquistou o Brasil e mais de 150 países do mundo com seus produtos. A fórmula para administrar tem uma mistura bem brasileira: simpatia e eficiência mineiras unidas ao estilo familiar e despachado de encarar os riscos do goiano. E, como resultado dessa soma, surgiu um modelo de gestão peculiar conhecido como sistema FROG ou “From Goiás”.

“É o nosso jeitão de fazer as coisas, tentamos não perder as raízes. E que jeito é esse? Tem que trabalhar, tem que juntar um time bom, tem que ter gente que gosta do que faz. E essa receita funciona no mundo inteiro. A explicação não está no modelo, está nas pessoas, no time formado. Isso que faz dar certo”, explica Joesley. E continua: “se sabemos de onde vem o dinheiro para financiar o negócio de forma sustentável e quem vai administrá-lo, podemos dar um passo ousado e ele nunca se tornará um passo maior que a perna”.

Ainda sobre o sistema FROG, Wesley complementa: “olha, o nosso modelo de gestão é lá de Goiás. E, no fim das contas, traduz um único pensamento, a crença no modelo de negócios simples. Muita gente nos pergunta qual é o maior desafio da JBS. Eu sempre respondo que é ter o tamanho que temos sem perder a nossa essência. Eu tenho visto muitas empresas que iniciaram os negócios de forma simples, com o foco nas pessoas, no coletivo e no time. No processo de crescimento, essas empresas começam a ‘inventar moda’, se burocratizam, fantasiam sobre coisas que são bonitas de se ver, mas que não funcionam na prática. Nós lutamos muito contra isso. O que traduz o estilo FROG de gerenciar é o foco nas pessoas e nos objetivos da empresa”.

Sempre há o debate em relação às decisões sobre os negócios, mas não existe divergência em questões pessoais. Wesley lembra que os irmãos acreditam na complementariedade: “todo mundo é bom em alguma coisa e fraco em outra. Não temos dificuldade em reconhecer onde somos fracos e quais são nossas habilidades, nossos pontos fortes. Então, nos damos muito bem”, enfatiza. A regra funciona, inclusive, para montar as equipes: pessoas que têm o mesmo instinto e a mesma vontade, mas conhecimentos diferentes. Nas palavras de Joesley, “tudo sempre gira em torno das pessoas. A empresa são as pessoas. Eu e o Wesley gostamos de realizar e preferimos um ambiente de risco. Então, enquanto conseguirmos encontrar as pessoas certas, financiar os sonhos da maneira correta e identificar as oportunidades, vamos continuar seguindo”.

O constante aprendizado criou uma fórmula para o sucesso dos irmãos. Segundo Joesley, é uma soma de trabalho, de empreendedorismo, de coragem e de dois ingredientes especiais: falta de juízo e um bocado de instinto. “Um dos maiores aprendizados que tive na vida até hoje é que o sucesso vem do equilíbrio. Meu pai sempre diz que quando você faz o que gosta, você não trabalha, você se diverte”, afirma. E sobre um modelo de gestão a ser seguido, o outro irmão Batista não vacila ao responder: “não acreditamos nisso. Gente é o que faz a diferença; processos não substituem as pessoas. O modelo de executivo ideal é quem tem alma, essência e espírito”. Ponto final.

Joesley e Wesley Batista são os responsáveis por transformar a JBS na maior produtora de proteína animal do mundo. Os irmãos dão continuidade ao legado do pai, José Batista Sobrinho, fundador da empresa e que, ainda hoje, influencia o dia a dia dos negócios com seu lema: quem faz aquilo que gosta não trabalha, se diverte.
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FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre JBS?

    • Ano de fundação:
      • 1953
    • Fundador:
      • José Batista Sobrinho
    • Chairman:
      • Joesley Batista
    • Presidente:
      • Wesley Batista
    • Número de plantas:
      • 340
    • Quantidade de funcionários:
      • 185 mil
    • Segmento/setor econômico em que atua:
      • Aves, suínos, bovinos, ovinos, couro, biodiesel, colágeno, confinamentos, embalagens metálicas, envoltórios, gestão de resíduos, higiene e limpeza, transportes
    • Ícones (produto inesquecível):
      • Friboi, Swift, Seara
    • Slogan:
      • Faz parte do seu mundo
    • Website:

A internacionalização da JBS

    • Exporta desde quando:
      • 2000
    • Valor exportado em 2013:
      • US$ 11,7 bilhões
    • Presença global:
      • 22 países, vendendo para mais de 150 países
    • Principais produtos exportados:
      • Carne bovina, carne de frango, carne suína

Apex-Brasil e JBS

    • Projetos da Apex-Brasil dos quais já participou:
      • Projetos Setoriais ABIEC, desde 2004 até 2015, Projetos Setoriais ABRA, desde 2012 até 2015, Projetos Setoriais CICB, desde 2010 até 2014, Convênio CCAB - 2013/2015, Feira SIAL, na França - 2008, Feira GULFOOD, nos Emirados Árabes, anos de 2009, 2013, 2014, Projeto Inter-Com - 2013, PBR Brasil - 2013, Projeto Grand Prix - 2013, Projeto Carnaval, anos de 2013 e 2014, Projeto Copa das Confederações - 2013, Projeto Copa do Mundo - 2014