MARCOPOLO: como quebrar paradigmas, por Paulo Bellini

25 DE JUNHO DE 2014 - MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS

Uma das maiores fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo é brasileira e o resultado de uma história de 65 anos de persistência, dedicação e muito cuidado com as pessoas

Duas características saltam aos olhos: o sorriso solícito e o olhar receptivo. A primeira impressão de quem tem contato com Paulo Bellini, mesmo sem conversar, é essa: ele é, certamente, um senhor simpático. Os olhos brilhantes refletem a história de vida de quem sempre buscou boas parcerias e a realização de sonhos. “Em qualquer circunstância, temos sempre que ser naturais”, explica. E ele é assim, de trato fácil, naturalmente.

Foi com esse espírito curioso e com essa simplicidade que Paulo chegou ao Japão, em 1986, com a missão de visitar fábricas locais e descobrir novas práticas empresariais. Expressões como “just in time” e “kanban” passaram a fazer parte do vocabulário dele. Mais tarde, também fariam parte da rotina da empresa. Claro, como qualquer mudança, nada aconteceu da noite para o dia; afinal, é comum que uma nova ideia encontre, no primeiro momento, obstáculos para ser aceita. 

“A Organização é antes de tudo o Homem”

Mas Paulo se surpreendeu com o que viu do outro lado do mundo e venceu a zona de conforto, com muita persistência e o apoio de alguns visionários como ele. Nada muito complicado para quem tem a trajetória profissional marcada “pela quebra de paradigmas, pela determinação e pelo foco extremo na valorização do ser humano”, como ele mesmo gosta de mencionar. O entusiasmo inicial se transformou em novos processos e modificou a rotina de produção da Marcopolo, empresa brasileira fabricante de carrocerias de ônibus, que passou a ser referência internacional.

Neto de imigrantes italianos, que chegaram à região da serra gaúcha há mais de cem anos, Paulo Bellini nasceu e cresceu em Caxias do Sul. Ali também constituiu família com Maria Célia, a Mary, companheira de jornada na vida e nos negócios, já que no início era ela quem cuidava de toda a parte administrativa e burocrática da empresa. Teve dois filhos e em 1949 participou da criação da Nicola & Cia. A companhia foi uma das primeiras indústrias brasileiras de carrocerias para ônibus – que nessa época eram de madeira e levavam 90 dias para serem fabricadas. Entretanto, a evolução do setor automobilístico (transportes e estradas) na década de 1950 foi ponto chave para o crescimento da empresa, que ainda tinha uma forma de produção artesanal.

O primeiro grupo era formado por 17 colaboradores. Paulo exerceu diversas funções na empresa, desde serviços de contabilidade, caixa, compras, recursos humanos, atendimento a clientes e fornecedores. Até que decidiu adotar, como desafio, a construção, praticamente do zero, de um novo segmento na indústria automotiva brasileira. Na época, não existia padrão nem conceito de fabricação. Os chassis eram próprios para caminhões, o que obrigou o desenvolvimento de processos produtivos diferenciados e mudanças mecânicas significativas.

“A Organização é antes de tudo o Homem”, Paulo Bellini costuma repetir. E com esta filosofia de trabalho, adotada para a empresa nos anos 1960, Paulo Bellini já demonstrava o lado humano e ao mesmo tempo empreendedor que marcou sua trajetória no mundo dos negócios. O caxiense de descendência italiana apostou no Brasil e “fez acontecer”, para ganhar o mundo e assim criar uma das maiores empresas do setor automotivo. Em 1968, já com um caminho bastante consolidado, participou do Salão do Automóvel, em São Paulo, onde apresentou ao mercado o modelo de ônibus “Marcopolo” (nome dado em homenagem ao desbravador Genovês). Em 1971, depois do sucesso do novo produto, Marcopolo conquistou ainda mais espaço e acabou se tornando a nova razão social da empresa.  

INTERNACIONALIZAÇÃO

Na década de 1960, a Marcopolo realizou a primeira exportação de ônibus brasileiros para o país vizinho Uruguai. Onze anos depois, já era a primeira empresa da indústria automobilística brasileira a transferir tecnologia no segmento de ônibus. A partir daí, as exportações foram crescendo até que, ainda na década de 1990, teve início o processo de internacionalização. 

Em 1991, a primeira fábrica no exterior, em Coimbra, Portugal; entre 1992 e 1999, acordo de transferência de tecnologia para a Dina Autobuses, fabricante de ônibus mexicana; Em 1995, inauguração da fábrica de Rio Cuarto, em Córdoba, na Argentina (fechada em 2001). Em 1999, mais uma aproximação com o México, dessa vez, com a inauguração da Polomex, fábrica própria. Em 2000 a Marcopolo fez associação com a Mercedez-Bens e também atravessou o oceano com o envio de ônibus semidesmontados para a Scania, na África do Sul. Foi ainda mais longe, quando entre 2001 e 2004, forneceu tecnologia para a IVECO para produção de Urbanos, Rodoviários e Micro-ônibus na fábrica chinesa. 

O processo de internacionalização continuou forte nos anos seguintes, com abertura de fábricas e associações com empresas na Colômbia; de novo na África do Sul; na Rússia; na Índia e, novamente, na Argentina. Em 2007, montou a segunda fábrica na Índia, a Tata Marcopolo que, em sociedade com a Tata Motors, é a unidade com a maior capacidade de produção de ônibus do mundo. O desbravamento continuou: em 2008, constituiu a Auto Components, na China, para fornecer sistemas, peças e partes de ônibus para fábricas da Marcopolo em todo o mundo. No mesmo ano, chegou ao Egito, mais uma vez à Rússia e, em 2012, adquiriu 75% da fabricante australiana Volgren, líder no mercado local. Assim, a Marcopolo marcou a entrada da empresa na Oceania que, em 2013, passou a ter a comercialização dos ônibus brasileiros por meio da Marcopolo Austrália. O ano de 2013 também foi de conquistar o mercado norte-americano com a aquisição de 19,99% da New Flyer, fabricante de ônibus urbanos.

Hoje a multinacional brasileira mantém operações em 12 países – África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Colômbia, Egito, Estados Unidos, Índia, México e Rússia – e vendas realizadas para mais de 100 outras nações.

GESTÃO DE PESSOAS

Paulo Bellini tem 65 anos de Marcopolo e uma característica que permeou a construção de sua vida profissional: acreditar que as pessoas são o diferencial de qualquer negócio. Ainda no começo da empresa, ele percebeu rapidamente que produzir ônibus demandava mão de obra intensiva e altamente qualificada. Por isso, sempre colaborou com a formação das equipes e se dedicou à criação de um ambiente aberto de permanente motivação que, para ele, “é um dos principais diferenciais competitivos da Marcopolo, junto com a inovação e a flexibilidade dos processos produtivos da empresa”, ressalta. A partir disso, nasceu o “Sistema de Produção Marcopolo”, focado na valorização e no aperfeiçoamento dos colaboradores para produção em larga escala de “ônibus customizados”, como ele mesmo definiu: “A empresa é uma grande alfaiataria, em que o chassi é a calça e a carroceria, o paletó”, compara.

“Não me considero modelo de nada. Mas elencaria duas características para o sucesso dessa história: realizar tudo com simplicidade e, principalmente, tratar as pessoas com carinho e com muita liberdade de troca”

 No ano 2000, a Marcopolo fabricou os primeiros ônibus com teto removível, para fornecimento a um cliente do Oriente Médio, e que foram usados nas peregrinações para as cidades de Meca e Medina. Esse episódio e a participação no Projeto Transantiago, no Chile – para o qual foram entregues mais de mil unidades em um prazo curtíssimo de tempo – tornaram a empresa referência mundial na produção de altos volumes, customizados e com entrega rápida. Em 2004, a Marcopolo foi eleita a “Melhor Fabricante de Ônibus do Ano”, na mais importante feira internacional do mundo, realizada a cada dois anos em Kortrijk, na Bélgica, e que reúne as principais empresas do mundo. E em 2013, a empresa lançou uma nova geração de ônibus rodoviários, a Geração 7, que alcançou enorme sucesso no Brasil e no exterior. 

A trajetória de sucesso da empresa, para o seu fundador, não é resultado de grandes estratégias. “Tivemos um começo sem tecnologia, não conhecíamos muito bem o produto que produzíamos, mas tínhamos cara e coragem e, assim, fomos evoluindo”, relembra. Hoje, a Marcopolo conta com 22 mil colaboradores mundo afora e isso, na opinião de Paulo, foi fruto da escolha de uma maneira de se levar o negócio: “Conseguir manter a motivação e a atitude positiva das nossas equipes, em todos os níveis e setores. O principal desafio da empresa foi, e ainda é, administrar pessoas. Não me considero modelo de nada. Mas se tivesse que elencar algumas características para o sucesso desta história escolheria: realizar tudo com simplicidade e, principalmente, tratar as pessoas com carinho, com muita liberdade de troca e levar tudo com muito bom humor”, ensina.

Paulo Bellini é fundador e atual presidente emérito da Marcopolo S.A. Costuma dizer que “as pessoas, na Marcopolo, fazem as coisas acontecerem”. O empresário de 87 anos gosta de pescar e, em 2012, lançou o livro “Marcopolo, sua viagem começa aqui”.
Compartilhe essa história
FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre Marcopolo?

    • Ano de fundação:
      • 1949
    • Fundador:
      • Paulo Bellini (o único a seguir com os negócios) e os irmãos Nicola
    • Chairman & CEO:
      • José Rubens de la Rosa (desde 2000) 
    • Presidentes Emérito:
      • Paulo Bellini
    • Número de fábricas:
      • Cerca de 20 plantas em 12 países
    • Quantidade de funcionários:
      • Cerca de 22 mil
    • Setor econômico em que atua:
      • Transporte, produção de ônibus
    • Principais produtos:
      • Ônibus e carrocerias de ônibus
    • Website:

A internacionalização da Marcopolo

    • Exporta desde quando:
      • 1961
    • Valor exportado em 2013:
      • Cerca de 200 milhões de dólares
    • Presença global:
      • Cerca de 20 plantas em 12 países, vendas para mais de 100 países
    • Principais mercados internacionais:
      • África do Sul, Argentina, Austrália, Canadá, China, Colômbia, Egito, Estados Unidos, Índia, México e Rússia
    • Principais produtos exportados:
      • Ônibus e carrocerias de ônibus

Apex-Brasil e Marcopolo

    • Projetos da Apex-Brasil dos quais já participou:
      • FIHAV 2013, FILDA 2013, Missões Comerciais 2012, Projeto Copa das Confederações 2013, Projeto Copa Mundo 2014