WEG: resultado da boa ambição e da química dos três fundadores e dos sucessores, como Décio da Silva

03 DE JULHO DE 2014 - MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS

Uma das maiores fabricantes de equipamentos elétricos do mundo foi criada a partir da percepção de uma necessidade e da possibilidade de atendê-la

Era fim de tarde em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Dois amigos conversavam, tomando uma cervejinha. Um deles estava preocupado:

– As peças ainda não chegaram... – comentou.

– De que você precisa? – perguntou o outro.

– Os motores para os balcões ainda não vieram de São Paulo. – explicou, preocupado.

O ano era 1961. O personagem-ouvinte ficou pensativo... Aquela conversa lhe deu uma ideia, mas mal sabia ele que aquele finzinho de tarde seria o primeiro momento do resto de sua vida. Eggon via a preocupação no rosto do amigo – dono de uma fábrica de balcões frigoríficos – e pensou, sem nenhuma pretensão: “Conheço um mecânico, conheço um eletricista. Poderia resolver o problema”, já vendo naquela situação uma oportunidade e no amigo, um cliente em potencial.

Esse foi o pontapé da WEG que, aliás, une as iniciais de seus fundadores: Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus. Não eram amigos, mas tinham a mesma vontade de crescer. E, assim, tudo começou. Nada de ideias mirabolantes. Apenas a percepção de uma necessidade e a possibilidade de atendê-la. “Tudo começou com muita austeridade e disciplina. Claro que as grandes ideias, às vezes, acontecem, mas não temos que contar com elas. Nós acreditamos nisso: é bom ter ideias, mas o que faz acontecer é muita, muita transpiração”, conta Décio Silva, filho de Eggon, que enveredou pelo negócio, sucedeu o pai e foi presidente da empresa durante 18 anos, até que em 2008, passou a cadeira para o executivo Harry Schmelzer Jr.

“Quando faltam máquinas, você pode comprar. Se não tiver dinheiro, você pode pedir emprestado. Mas homens, você não pode comprar ou pedir emprestado. E homens motivados por uma ideia são a base do êxito” – Eggon João da Silva

Harry não é membro de nenhuma das famílias fundadoras, o que, para Décio, faz bem para os negócios. Segundo ele, um dos pontos fundamentais para o crescimento da empresa foi o processo de mudança e de sucessão. “Eu sempre brinco que uma empresa não pode fazer duas coisas: uma, mudar sempre as lideranças. Se fizer isso, não constrói uma curva de aprendizado e nem uma visão de longo prazo. Mas também não pode estagnar, não mudar nunca e nem fazer longos processos de gestão. Harry está há seis anos no cargo. O mundo moderno anda numa velocidade enorme e as pessoas têm que acompanhar isso. As coisas têm que mudar para dar saltos”, afirma Décio.

O executivo que se aposentou aos 48 anos nem pensava em seguir a carreira. Queria mesmo era ser jogador de futebol. “Era um ótimo centroavante”, brinca. Mas o pai Eggon não deu moleza e aos 13 anos convocou o filho a frequentar o centro de treinamento que a WEG montou em Jaraguá do Sul, em parceria com o SENAI. “Meu pai já sabia que só se vence com uma equipe extremamente capacitada e com um modelo de gestão que efetivamente faça com que esses craques funcionem. Jaraguá era uma cidade agrícola, não tinha mão de obra. Eu diria que o centro de treinamento – e a preocupação com educação e formação das pessoas – é a coluna vertebral da WEG”, relata.

Depois de 40 anos de existência, o centro – que começou com 15 alunos – forma anualmente cerca de 80 alunos em um curso de especialização em mecânica e elétrica que dura três anos. Quem termina o curso, totalmente pago pela WEG, ainda tem mais uma oportunidade: trabalhar na empresa. Décio afirma que muitos dos formados que não seguiram carreira na companhia acabaram abrindo negócio próprio e hoje fazem parte da cadeia de fornecedores da empresa. “Eu diria que eu mesmo sou fruto da inspiração dos fundadores em fazer uma escola dentro da empresa”, declara.

“O que é preciso nos negócios é ter ambição, mas a boa ambição, aquela de querer efetivamente crescer, se desenvolver. E, para isso, é necessário muito sacrifício. O empreender nunca está ligado a coisas muito fáceis” – Décio da Silva

INTERNACIONALIZAÇÃO

Décio vê a internacionalização da WEG como mais um ponto fundamental para o sucesso da empresa. “Não foi só uma expansão geográfica e a troca de produto por dinheiro, mas uma questão de ver onde tem oportunidade e seguir em frente”. Exportar era uma necessidade para manter a presença mundial e atender clientes multinacionais. A WEG começou a exportar em 1970, mesmo ano em que abriu o capital. “A abertura de capital é uma forma de perenizar a empresa, porque uma empresa familiar precisa de outros olhos para sobreviver”, ensina Décio.

Além da entrada na BOVESPA, a estratégia de crescimento da WEG levou em consideração duas ferramentas. A primeira foi criar um portfólio variado de produtos, com os que sustentam a empresa e também com aqueles mais inovadores. A segunda foi a expansão geográfica. “Os fundadores queriam que a empresa fosse a maior de Jaraguá do Sul; logo, queriam ser uma empresa de renome em Santa Catarina; depois, queriam conquistar o Brasil e, em seguida, o mundo. Exportar foi um ganho de conhecimento fantástico, se expor ao mundo criou um mindset internacional na empresa. A ideia era ser a maior do mundo no nosso principal negócio, que eram motores elétricos”, relembra Décio.

Durante 20 anos, a empresa exportou. Primeiro, por meio de representantes. Depois, montando escritórios próprios em vários países para administrar clientes e logística. A distribuição de produtos passou a ser própria, sem produção, somente estoque, atendimento e placa WEG nos produtos.

A certa altura, foi necessário dar um passo a mais. “O cliente prefere comprar do fabricante e não do distribuidor. A decisão de ter fábricas em outros países foi primordial para o crescimento da empresa; caso contrário, teríamos lucro estável, mas sem crescimento”, afirma Décio. Hoje, a WEG tem subsidiárias em 22 países: Estados Unidos, México, Venezuela, Chile, Colômbia, Argentina, Portugal, Itália, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Bélgica, Áustria, Austrália, Japão, China, Índia, Cingapura, Dubai e Rússia.

A estratégia para escolher os países que abrigam fábricas da WEG é a seguinte: o local precisa ter um mercado interno grande, mão de obra competitiva e grande oferta de matéria-prima (aço e cobre). Segundo Décio, “a vantagem de se ter plantas no exterior é a proximidade com o cliente, a logística, além da segurança”. Por uma questão regional e pelo Mercosul, as primeiras duas fábricas foram instaladas na Argentina. Entretanto, a mais importante foi a fábrica do México, terceira planta no exterior da empresa.

O próximo passo foi investir na Europa: a quarta fábrica da WEG foi em Portugal, menor que a do México, e produzia apenas motores industriais de grande porte, com mais tecnologia (na Europa não é competitivo produzir motores pequenos porque a mão de obra é cara). Em dezembro de 2004, uma fábrica foi adquirida na China, e a presença no continente asiático foi reforçada. Em 2006, mais uma aquisição no México e, em 2007, uma filial de vendas foi aberta em Dubai. Em 2010, a WEG alcançou a África do Sul, e, em 2011, a Índia e o Peru. Adquiriu também planta na Áustria (a Watt Drive – especializada no desenvolvimento e fabricação de motores, redutores, inversores e sistemas de acionamento – tinha unidade fabril na Áustria e unidades de montagem na Alemanha e em Cingapura). Nos Estados Unidos, foi a vez da Electric Machinery, fabricante de motores, geradores e equipamentos que servem milhares de clientes em todo o mundo, principalmente, no segmento de petróleo, gás e geração de energia. A Pulverlux, na Argentina, e a joint venture com a espanhola MTOI fizeram parte da gigantesca expansão da WEG.

“Além do que já fazemos, vamos fornecer equipamentos para parques de energia eólica, estamos desenvolvendo ônibus elétricos – tanto híbrido, quanto puro -, trabalhando com energia sustentável, cogeração de açúcar e álcool e temos negócios relativos à energia solar e criação de redes inteligentes para venda de energia excedente. Estamos atuando em várias frentes, algumas vão dar certo, outras não vão sair. O que é preciso nos negócios é ter ambição, mas a boa ambição, aquela de querer efetivamente crescer, se desenvolver e, para isso, é necessário muito sacrifício. O empreender nunca está ligado a coisas muito fáceis”, ensina Décio. 

OLHO NO FUTURO

A visão de longo prazo sempre fez parte da estratégia da empresa. “Falando de futuro, a diretoria da WEG lançou o plano 20/20, ou seja, atingir 20 bilhões de faturamento até 2020. Isso exige uma taxa de crescimentos de 17%, então temos muito chão pela frente. Ter metas arrojadas é importante”, diz Décio e continua: “Se você coloca uma meta medíocre, você corre o risco de atingi-la. Colocar metas ambiciosas, ousadas, não resolve tudo, mas é um bom começo”.

Empoderar os funcionários é outro ponto importante. “Uma coisa muito relevante é fazer com que toda a equipe tenha sentimento de dono e participe não somente das tomadas de decisão, mas da divisão dos lucros”, afirma Décio. Desde 1989, a WEG trabalha com gestão participativa e chega a distribuir até 12,5% do lucro líquido da empresa para os funcionários. “Se pensar que esse plano foi criado antes da lei que permitiu a dedutibilidade dos impostos para empresas com esse tipo de programa, pode-se dizer que fizemos uma coisa muito diferente, à frente do tempo”.

Atitude de quem não tem medo de arriscar. Assim a WEG acabou conquistando o mundo: com a obstinação de três pessoas que não se conheciam e que tinham habilidades e personalidades diferentes. Mas que, segundo Décio, tinham algo fundamental: “uma sociedade tem que ser bem pensada e tem que ter química. Mesmo sem serem amigos, aconteceu a química entre os três”. Mais que isso: “Os fundadores, desde o início tinham a intenção de criar uma empresa forte, antes mesmo de pensar em conforto, em benefício próprio e em rentabilidade pessoal. Queriam uma companhia voltada para os resultados econômicos e para os interesses de todos os stakeholders”. E desse espírito se fez a WEG.

Décio da Silva é Presidente do Conselho de Administração da WEG e filho de um dos fundadores da companhia. Ele acredita que "é preciso ter boas ideias, mas antes de mais nada precisa muita transpiração"
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FONTES DE PESQUISA

DADOS ECONÔMICOS

Quer saber mais sobre WEG?

    • Ano de fundação:
      • 1961
    • Fundadores:
      • Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus 
    • Presidente:
      • Harry Schmelzer Junior
    • Número de fábricas:
      • 11 fábricas no Brasil e 12 fábricas no exterior
    • Quantidade de funcionários:
      • 29.099
    • Setor econômico em que atua:
      • Máquinas e equipamentos
    • Principais produtos:
      • Componentes eletroeletrônicos, produtos para automação industrial, transformadores de força e distribuição, tintas líquidas e em pó e vernizes
    • Website:

A internacionalização da WEG

    • Exporta desde quando:
      • 1970
    • Valor exportado em 2013:
      • US$ 1.567,7 milhões
    • Presença global:
      • 10 países com unidades fabris e 28 países com filiais comerciais. A WEG exporta para mais de 135 países.
    • Principais mercados internacionais:
      • EUA, África do Sul, Canadá, México, Alemanha, Reino Unido, Argentina, Austrália, França, Espanha, Chile, China, Índia e Itália.

Apex-Brasil e WEG

    • Projetos da Apex-Brasil dos quais já participou:
      • Projeto Setorial SINDVEL 2010-2012, Missões Comerciais 2012